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Duas mães no cantinho do pensamento

Hoje vivi uma situação que, embora não tenha me prejudicado, me deixou bastante irritada e reflexiva.  Meu filho tem 4 anos, estuda em um EDI (Espaço de Desenvolvimento Infantil) de Campo Grande-RJ – não vou identificar porque esse não é o objetivo do meu relato. Sou branca, de 33 anos, cursei faculdade pública (Letras), sei me expressar adequadamente na fala e também na escrita. Domino as principais regras da norma padrão, tenho um vocabulário razoável e costumo me sair bem em discussões e situações sociais. Esses são meus privilégios. Na outra mão, a das desvantagens, sou uma mulher que se tornou mãe solo (eu poderia parar por aqui) e que está atualmente desempregada, vivendo de freelas. Moro sozinha com meu filho, pago aluguel, não tenho família por perto (250 km de distância) e perdi meus pais dentro de um intervalo de 8 anos – minha mãe, como alguns sabem, há 8 meses.  Na creche em que meu menino estuda, as mulheres imperam. Professoras, auxiliares de turma, coordenadora ...

Since you took your love away

Existem passos e tempos para entender o que aconteceu com a gente e entre a gente. Modos também.  Ontem senti muita falta da minha mãe e só ontem, oito meses depois, consegui dizer algumas palavras pra ela. Não foi um texto; pra ela, tinha que ser uma interlocução direta (nós nunca nos comunicamos por terceiros, as farpas sempre foram diretas). O amor, quando tinha que ser, quando foi amor, igualmente. Eu escolhi (na medida em que se pode escolher coisa do tipo), então, responder alguns comentários antigos dela em fotos minhas do Facebook.  A palavra é, desde que eu me lembro de mim mesma, o meu modo de entender o mundo. Pensando nisso, acredito que a terapia teria me feito bem desde o início. Estar em terapia não deixa de ser, ainda que seja uma definição simplista, um modo de palavra. É o momento em que você se senta, pensa (ou não) e escolhe as palavras pelas quais vai comunicar as suas experiências a outra pessoa. O analista não conhece os seus pensamentos diários, sua rot...

A sina de um texto qualquer perdido: um testamento dos meus 31

Acredito que superei a fase Bentinho. “A Capitu da Glória já estava dentro da de Matacavalos?”, ou alguma coisa do tipo. Se bem que essa reflexão sempre vai me acompanhar, considerando que, vira e mexe, estarei perplexa com as aparentes transformações das pessoas ao meu redor. Apesar dos anos, essa estupefação não mudou. Nesse ponto, eu mesma não me transformei. Encerrado o primeiro parágrafo, simples mote “estilístico” para este texto, em uma tentativa desde já fracassada de estilo machadiano, queria dizer que amei uma abstração. Não sei se é tão comum assim. Já me peguei várias vezes fazendo a pergunta de Bentinho: “caramba, será que fulano mudou tanto assim em tão pouco tempo? Será que ele já era assim e eu não percebi?” Mas, contudo, todavia, hoje, tendo a acreditar que nenhuma das duas perguntas encontra um “sim” como resposta. Uma terceira se faz, então, necessária: “cacete, será que eu me apaixonei por uma invenção?” Conto, agora, com meus 31 anos, idade em que a maioria das mul...

Cantarei o amor que não sinto (será que eu tô emocionada?)

Temporariamente cantaremos o amor, ainda que ele tenha se refugiado mais abaixo dos subterrâneos. E ao que parece, Drummond estava certo : nos nossos tempos, o amor foi escamoteado para as profundezas, envergonhado de existir.  Eu já amei algumas vezes, fui amada outras e umas tantas não. Quando falamos só “o amor”, “eu já amei”, “fui amada”, o senso comum detecta o amor romântico, de tão colado que ele está à imagem do sentimento amoroso. Acompanhando a maioria, dele mesmo é que eu estou falando dessa vez. O amor passa, hoje, por uma ideia de anulação, como se tivéssemos chegado a um estado tal de depuração que nos basta sentir (sem viver ou dar prova) ou, pior, não sentir amor pelo outro, apenas por nós mesmos. É a fase do “amor próprio”, do “eu primeiro”, do “ficar feliz sozinho/a”. Não que eu discorde, mas acho que me calça melhor, e para uma grande parte das pessoas, um “não estar infeliz sozinha” ou “estar confortável sozinha”. É plenamente possível curtir a própria companhia...

Barbie da contracultura, eu?

Me programei para, mais tarde, assistir ao filme da Barbie. Ainda não tenho considerações sobre o enredo porque estou me poupando de ler críticas, resumos, spoilers que possam, de antemão, direcionar (muito) a minha opinião enquanto apreciadora de filme/arte. Algum pré-conceito (temos, aqui, uma palavra-chave para este texto) é sempre possível, e até esperado: sei que o filme tem viés feminista/crítico, ao mesmo tempo que funciona como peça de marketing reverso.  Há uma grande euforia em torno deste filme, assim como houve (e há) sobre o uso das inteligências artificiais para produção de conteúdo (acabo de ter a frase corrigida pela IA do Google Drive). Tão distantes dos meus anos 90, durante os quais eu mesma brincava de Barbie, nos dias correntes, é difícil encontrar um assunto que, internetizado, não caia nas graças e nas garras do público consumidor de posts e produtor de comentários. Todo mundo tem, quase invariavelmente, uma opinião superficial sobre as coisas — seria este t...

Personalíssima

Crônica é um tipo de texto (ou seria gênero textual?) em que se conta uma história sobre a qual se faz uma reflexão. Em curtas linhas, essa é a definição que eu mais usei quando, nos últimos cinco anos, um aluno me perguntava “O que é uma crônica?”  Outro dia, que poderíamos chamar de “ontem”, com a cabeça povoada pela ansiedade, entre tantos pensamentos e louças sujas, pensei “será que eu sei fazer uma crônica?”. Depois, recordando a definição misturada ao que eu, quase sempre, faço com os textos que escrevo, concluí que sim. Pode não ser uma crônica estruturada, do tipo que faria a festa em uma coluna de jornal ou revista, mas não deixa de obedecer ao principal do conceito: são reflexões que faço a partir de acontecimentos (banais ou não) da minha própria vida. Ou, jogando o anzol mais longe um pouco, mas não sem propósito, seriam acontecimentos reinterpretados à luz das reflexões que me chegam depois e que, frequentemente, não têm nada a ver com eles.  Pois é. Vamos dizer q...

Parte 1: "Na sua estante", Pitty

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Você, sempre perdido em um mundo que não dá pra entrar  A música sempre me tocou de uma forma intensa. Costumo dizer, para os que não me conhecem, que a mudança de uma faixa para outra, mesmo dentro de uma playlist categorizada, pode, a depender do dia, “trocar” também o meu estado de humor. Se eu fosse atriz, acho que usaria a trilha sonora para momentos de choro ou euforia (aliás, bastante propício usar esses dois termos agora). Neste texto, porém, a intenção não é falar da música como motriz de sentimentos e propulsora do humor. Acredito, desde sempre, que músicas são formas diferentes de contar histórias, e por isso sempre tive bastante dificuldade de apreciar músicas instrumentais, clássicas, sem letra. Sim, eu sei que existem outras linguagens capazes de contar histórias tão bem quanto as palavras, mas eu espero que você, que me lê, já saiba que eu fiz… Letras. As palavras, faladas ou escritas, assumem um papel bastante central na minha interpretação do mundo (e das pessoas)....