Parte 1: "Na sua estante", Pitty


Você, sempre perdido em um mundo que não dá pra entrar 

A música sempre me tocou de uma forma intensa. Costumo dizer, para os que não me conhecem, que a mudança de uma faixa para outra, mesmo dentro de uma playlist categorizada, pode, a depender do dia, “trocar” também o meu estado de humor. Se eu fosse atriz, acho que usaria a trilha sonora para momentos de choro ou euforia (aliás, bastante propício usar esses dois termos agora).


Neste texto, porém, a intenção não é falar da música como motriz de sentimentos e propulsora do humor. Acredito, desde sempre, que músicas são formas diferentes de contar histórias, e por isso sempre tive bastante dificuldade de apreciar músicas instrumentais, clássicas, sem letra. Sim, eu sei que existem outras linguagens capazes de contar histórias tão bem quanto as palavras, mas eu espero que você, que me lê, já saiba que eu fiz… Letras. As palavras, faladas ou escritas, assumem um papel bastante central na minha interpretação do mundo (e das pessoas). Sou péssima leitora de silêncios, embora saiba reconhecer a pausa, quando bem-utilizada, como chave de um discurso, como elemento que comunica, naquele hiato, mais do que qualquer frase poderia. Mas o fato é que eu sou fã das palavrinhas e, mais ainda, do casamento entre elas e o som, em uma espécie de “novela musical”. Associações fatais, meus caros. 


Se músicas contam histórias, que tipo de histórias elas costumam contar? Você já reparou que a grande maioria fala sobre (ou tangencia em algum momento) um mesmo tema? Ah, o amor. A velha ligação entre a lira e a poesia, a evolução da poesia cantada, dentro da lógica medieval, para o amor cortês, a idealização feminina, o distanciamento (e o consequente sofrimento) entre os amantes. Todos esses elementos tão blasé continuam aí, até mesmo nas revolucionárias letras de funk. E é dele (na verdade, de uma parte bastante especial do que entendemos como “amor” ou “relacionamento amoroso”) que eu gostaria de tratar neste texto. Trata-se de uma iniciativa, motivada por motivos particulares (vocês já vão entender quais, em breve), de dissecar a associação entre música(s) e relacionamentos amorosos disfuncionais. Muito pretensiosamente, mas, ao mesmo tempo, com meu pezinho no chão, eu desejaria responder às perguntas: de que forma as músicas, principalmente as que têm como eu lírico (emissora, falante) uma mulher, atestam o lado menos “belo” de um relacionamento? O que uma narradora, ou reclamante, feminina, nos nossos tempos, traz como evidência de si mesma, das suas expectativas e frustrações de ser mulher diante do que se espera de um homem, dentro de uma relação que, a priori, se move por “amor”?


A minha análise — que é totalmente pessoal e pautada em vozes da minha cabeça, sem qualquer embasamento científico, portanto (que fique claro) — está na sincronia, no hoje. Não vou retomar os precedentes, a história do amor romântico ou mesmo a etimologia do “amor”. A parte linguista que me perdoe, mas ficará de fora. Aqui rege o meu lado mulher, fêmea da minha espécie, criada como tal. Na verdade, eu sou uma “reclamante feminina”, desde sempre. 


Para essa tarefa, eu separei algumas músicas que eu ouço há algum tempo e em que reparo índices de um certo incômodo/dor da voz feminina, sobretudo. Não digo que sejam histórias de relacionamentos abusivos, mas afirmo que existem, em cada uma delas, pequenos ou grandes sinais de um descompasso que se pode atribuir, sim, à disparidade homem/mulher e ao que é esperado, socialmente, de cada um dentro de um relacionamento amoroso. 


Algumas, como a que inicia o meu “ensaio”, têm um viés bastante carregado de relacionamento abusivo (eu não saberia ler de outra forma, pelo menos, mas nada aqui é unívoco). Começo, então, com “Na sua estante”, da Pitty, grande figura do rock feminino brasileiro e que marcou a minha adolescência, pelos idos dos anos 2000. 


Parte 1: Na sua estante, Pitty


Segundo a Wikipedia, foi composta pela própria Pitty e lançada em 2005. Tinha eu meus 15 aninhos, estava “encalhada” e na expectativa do primeiro beijo, o que só sucederia um ano mais tarde (Fernando, corre aqui!). A música não me chamou atenção na época (na verdade, a Pitty não era uma preferência minha), mas veio se revelar agora, em pleno 2022/2023, vejam só. Há obras (romances, contos, músicas, filmes) cujo mistério precisa de tempo e de vivências (palavra preferida de um “amigo”) para amadurecer e se desvelar à nossa cognição. 


Na sua estante tem um quê bastante profundo de dependência emocional. Entretanto, ouvindo a voz feminina que nos conta a dinâmica desse relacionamento findante, a gente consegue entender que a música é, de fato, uma declaração de despedida. Por um cansaço, por ter entendido racionalmente que o sentimento que os liga não faz bem, a mulher está se despedindo, encerrando a participação na vida de um homem que está “sempre indo e vindo”. 




Imagem extraída do clipe oficial de "Na sua estante", via YouTube. 


Antes de me aprofundar na letra, digo, de antemão, que essa canção remete a muitos momentos do meu relacionamento (já encerrado). Foram alguns anos procurando decifrar, entender, preencher vazios com explicações, e, nessa busca constante, eu me deparei com determinadas características que se repetem em tipos de pessoas. Já está bastante disseminado na internet o que é uma pessoa com transtorno de personalidade narcisista, então eu só preciso dizer que: não sendo psicóloga ou psiquiatra — e, portanto, sem poder fazer qualquer afirmação precisa a respeito —, eu acho que lidei, por anos, com uma pessoa dentro desse espectro (pois nem todos “fecham” o diagnóstico). Ninguém é só luz ou só sombra. Seres humanos, complexos por si, estão sempre na zona cinza, e as características de um narcisista estão, em variados graus, presentes em todos nós. 


Deixo, aqui, como mera fonte de informação e referência, os critérios que definem, segundo o DSM-5, o transtorno de personalidade narcisista: 


  • Ter uma sensação exagerada e infundada da sua própria importância e talentos (grandiosidade).

  • Ter preocupação com fantasias de realizações ilimitadas, influência, poder, inteligência, beleza ou amor perfeito.

  • Ter convicção de ser especial e única e que deve relacionar-se apenas com pessoas do mais alto calibre.

  • Ter necessidade de ser incondicionalmente admirada.

  • Ter sensação de merecimento.

  • Explorar os outros para alcançar os próprios objetivos.

  • Ter falta de empatia.

  • Ter inveja dos outros e convicção de que outros a invejam.

  • Ter arrogância e altivez.


Eu poderia resumir tudo isso em “ser um puto egoísta”. No entanto, se você tiver curiosidade de saber a origem do termo "narcisismo", caso ainda não saiba, dá uma olhadinha aqui (não, a milionária do "Ai, que loucura" não tem nada a ver com isso, mas loucura é quase um termo cabível ao contexto, que me perdoem os bons malucos).


A lenda de Eco e Narciso, bastante emblemática para a psicologia: uma ninfa histriônica desprezada por um belo rapaz insensível, que receberia de Nêmesis, deusa da vingança, o castigo do amor cuja realização carnal é impossível, a adoração da própria imagem. A adoração de uma imagem falsa, de um reflexo. Por isso, tenho convicção de que o narcisismo não faz bem a quem carrega, um ser humano condenado a quase eternamente correr atrás do próprio rabo e cometer os velhos e bons mesmos erros. No entanto, o potencial de fogo é ainda maior para quem está do lado.


Voltemos à música que eu não sou psicóloga nem mitóloga.


Na sua estante fala de um relacionamento que está se encerrando, aparentemente por iniciativa da mulher que nos conta a história. A outra parte desse pêndulo é um homem com algum grau de narcisismo e manipulação. Não é por acaso que a reclamante precisa, para encontrá-lo, depois de mais uma “vinda”, vestir “uma armadura”. 


Mas a parte que mais me aciona gatilhos não é o refrão ou o desenvolvimento; é a estrofe inicial:


Te vejo errando e isso não é pecado

Exceto quando faz outra pessoa sangrar

Te vejo sonhando e isso dá medo

Perdido num mundo que não dá pra entrar


Esse homem erra com frequência — observe o gerúndio “te vejo errando” —, o que não é reconhecido pela mulher como um “pecado” (afinal, errar é humano e faz parte de se estar vivo e vivendo). O problema é que ele erra e insiste em erros que sabidamente fazem mal a “outra pessoa”, ela mesma, a reclamante. Já houve, entre eles, um diálogo (ou, chute com base em experiência própria, dezenas) sobre o quanto essa mulher se sente atingida com os erros perpetrados por esse “ser”, mas nada foi feito. E a omissão (por que não dizer, o cinismo) segue fazendo com que ela sangre. 


Mas os dois versos finais dessa estrofe me assustam mais: “Te vejo sonhando e isso dá medo / perdido num mundo que não dá pra entrar”. Muitas vezes, somos plateia de um mundo de “sonhos” delirantes, dos quais não fazemos parte ou dentro dos quais somos uma peça decorativa, acessória, sem que eles façam qualquer sentido para quem nós somos ou para o que queremos da vida. É como se a gente não existisse para além de completar as aspirações transitórias de alguém, como morar em um sítio no meio do mato sendo uma pessoa predominantemente urbana. E isso, de fato, dá um medo de arrepiar a espinha: por vezes, eu me sentia falando com um teleguiado, alguém que estava em “outro mundo”. E o problema nunca foi um “outro mundo”, mas que eu nunca estava, como eu sou, com as minhas qualidades, defeitos e desejos, dentro desse mundo. É, sem nenhuma dúvida, “um mundo que não dá pra entrar”. 


A segunda estrofe da canção confirma a pegada abusiva. As impressões dessa mulher (e mesmo o fato de ela ter decidido se retirar) são atribuídos a uma “loucura”:


Você está saindo da minha vida

E parece que vai demorar

Se não souber voltar ao menos mande notícia

Cê acha que eu sou louca

Mas tudo vai se encaixar


Ela ainda se sente conectada, inegavelmente. Embora ele esteja saindo da vida dessa mulher, pelo menos em tese, ela ainda pede que ele “mande notícia”. Seria o desaparecimento e o gosthing estratégias frequentemente usadas por esse homem? Ficam sugestões, apenas indícios, mas não é nada raro que isso se confirme como uma prática comum em relacionamentos amorosos com homens, não é? Ela quer terminar (e houve conversa(s) antes disso), ela está terminando, e a conclusão do reclamado é que ela é… Adivinhe? Louca. Te parece familiar, moça? Pois, pra mim, é muito. Tudo é exagero, você que não soube “lidar”, você não foi calma o suficiente, você, afinal, nem se parecia com uma “mulher”. 



Conviver com um Narciso pode te tornar, paulatinamente, uma pessoa sem brilho, 
sempre cansada e que se sente insuficiente. 


Um detalhe sobre relacionamentos tóxicos que quase ninguém entende é que não é fácil sair. Mesmo quando a gente tem dimensão do que está passando e do quanto é manipulado, predomina a lei da inércia (quando se tem filhos então… e quanto menores, pior). Fora a esperança de que, em algum momento, por algum ajuste (nosso, claro), o homem mude o comportamento nocivo, existe o apego aos bons momentos. Aquele casal não viveu sempre em pé de briga, então será que não há uma maneira de voltar ao passado ou de se “reinventar”? Uma vez separados, a mulher costuma permanecer na expectativa de que o homem repense, revise e perceba o quanto errou. E que, mesmo “vivendo a vida adoidado”, ele procure, em outras mulheres, as características e o sentimento que recebeu da “mulher amada”. Essa seria uma forma de reparação. 


Narcisistas, como o possível interlocutor da música, amam de uma forma torta. Não é um amor de plenitude, mas marcado por uma sucessão de encantamentos e sensações agradáveis. Se não fosse bom todo o seu “mel”, moça, o beija-flor não perderia tanto tempo te seduzindo, certo? Certo! Mas são emoções, e pessoas movidas (apenas) por emoções encaminhadas precisamente ao ego, destinadas a alimentar e a validar comportamentos, características, performances. Se você não der conta de viver assim e esperar algum tipo de reciprocidade, é melhor procurar outro tipo de personalidade.


O refrão de Na sua estante diz sobre essa expectativa de amor “em outra fonte”, de que o beija-flor perceba o quanto amava (e era amado) a mulher reclamante (e o quanto não valorizou tal amor) quando for procurar as suas características em outras flores, no esquema “Entre a serpente e a estrela” (“O passado de volta / Num semblante de mulher”). 


O seguimento da canção aponta, também, para um traço muito importante de relacionamentos abusivos: a explosividade. Depois de se abrir pela última vez — e de se perceber sendo, talvez de forma inédita, ouvida —, a mulher reclamante saboreia aquele momento de interação e de possível acolhimento antes que tudo se transforme em uma disputa, uma conversa cujo único objetivo é a guerra de forças. O homem, se não por argumentos, vai vencer, seja por força de insistência ou pela paulatina habilidade de convencer a outra parte de que ela está, efetivamente, exagerando ou ficando “louca”:


Tô aproveitando cada segundo
Antes que isso aqui vire uma tragédia

E não adianta nem me procurar
Em outros timbres, outros risos
Eu estava aqui o tempo todo
Só você não viu

Eu não pretendo comentar, aqui, cada estrofe da música, o que seria exaustivo para mim e para os meus possíveis leitores. Falei o que achava essencial. Não posso, porém, antes de encerrar os comentários sobre essa canção, deixar de mencionar o título, o que deixei, premeditadamente, por último: “Na sua estante”. 

Você já se sentiu “na estante” de um homem? Eu, sim, por cinco anos. Muitas vezes fiquei vermelha (de raiva, de dor) e recebi longos olhares de desaprovação salpicados de prazer. Narcisistas (ou ensaios de narcisistas) usam as companheiras, como a moça da música, não só como fonte de um certo prazer sádico, mas como troféus em uma estante. Troféu de quê? Me perguntei por anos. Te respondo, com base apenas na minha experiência: troféu de que ele é capaz de despertar sentimentos que ninguém é capaz de despertar neles mesmos. Ou de que você tem uma série de atributos que ele gostaria de ter. Narcisistas costumam ter bom gosto; logo, lady girl, saia dessa e saiba que você é valorosa e não ficaria bem nem nessa e nem em qualquer outra “estante”. 

Eu prefiro pensar que isso não seja amor. Me deixa com a minha esperança romântica, tá? Para todas as moças da canção da Pitty, espero, de verdade, que tenha sido o fim de um ciclo e que não haja mais idas e vindas (ou que seja assim em breve!), que, finalmente, Curtains finally closin'”Mas esse é assunto para um outro texto.


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