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Mostrando postagens de maio, 2023

Eu não te amo mais, e não consigo amar mais ninguém depois de ter amado você

Évora, 31 de maio de 2023. Eu não te amo mais, e não consigo amar mais ninguém depois de ter amado você. Sinto que todo o meu encantamento foi retido naqueles meses de cegueira completa. Momentos em que eu vi, eu podia ver, mas eu escolhi não ver. O que eu não via, mas sentia, sim, isso era tão mais valioso. As lacunas do que eu não sabia, do que você não mostrava e mesmo do que era torto, eu preenchia com retas fantasias ou com a ilusão de que o amor domina tudo, é capaz de mudar, endireitar castelos, reacender as nossas luzes, trazer a verdade à tona em um mundo de mentiras.  No entanto, eu te vejo hoje, e a minha versão atual, um pouco mais equilibrada e menos carente, um muito mais preocupada, não seria capaz de amar o produto de nós que você se tornou. O produto das nossas almas dentro de cada um de nós é tão vasto, profundo e aberrantemente doloroso. O produto dos nossos corpos é perfeito, circula pelo mundo quase autônomo, dá e recebe amor de um jeito natural, egoísta e altr...

Hey, girl, don't carry the world in your grocery bags

  Volto do supermercado com as bolsas leves e a cabeça pesada. São tantos os pensamentos sobre dinheiro, futuro, como conseguir um emprego, fazer ou não concurso (como se fosse questão de fazer e passar, simplesmente), meu filho e suas necessidades básicas, meu ex-marido e seu absenteísmo e descortesia habituais. Até quando podemos esticar as cordas da vida sem arrebentar?   Este texto é pessoal, sem a intenção de ser outra coisa. Em meio ao fluxo-rio de acontecimentos, eu não tenho conseguido chorar. Corrijo: não consigo chorar quando e como eu gostaria, mas basta um dito do meu filho, a vontade no meio da tarde de fazer aquela ligação (e não poder, simplesmente), um filme de mafiosos que costura a vida familiar complicada de um homem frio. Eu diria que, na verdade, é uma personagem econômica na linguagem por “não saber o que dizer”, frase repetida por De Niro ao longo de “O Irlandês” algumas vezes. Basta algum estímulo despretensioso para me fazer pensar na realidade, para m...