O retorno das formigas
As formigas voltaram. Na verdade, elas nunca foram; eu é que deixei de dar atenção ao percurso incessante, que ora diminui, ora aumenta. Fato é que a cozinha está tomada — espalham-se os pontinhos pretos, como caviar quase microscópico, pela pia, micro-ondas, paredes, rumo ao verso dos espelhos de luz. Elas gostam do escuro, feito tantas outras coisas na vida, que crescem nos subterrâneos. Essas pequenas grandes coisas em que a gente não pode deixar de reparar, sob o risco de se agigantarem por falta de atenção, de exposição, de luz. Este texto não é sobre formigas, e talvez seja um dos muitos textos que não vão pra frente, por mexerem com aquilo que se quer esquecer ou que ainda não se aprendeu a dizer. Este texto é sobre pequenas coisas que, por falta de luz, à noite, tomam a casa de assalto. E, então, nos vemos a nós: de mãos atadas, respiração ofegante, como se a linha tênue da vida, aquilo que dá alguma ordem ao mundo, tivesse se partido. De repente, não mais que de repente. Este ...