Duas crianças e uma bola

Vicente


Foi uma tarde daquelas em que a minha mãe diz que vai me levar à pracinha e fica enrolando. Fala que eu estou nervoso, agitado e que “assim não dá”. Fomos. 


Ah, ganhei uma bola e levei para brincar na quadra. Assim que a gente chegou e começou a usar a bola, apareceu um menino. Fingi que não entendi o nome dele (Benício), e ele, mesmo depois de eu ter dito meu nome, só me chamava de “menino”. Minha mãe perguntou a idade do Benício: 5 anos. 


Eu queria correr, chutar a bola pra fora da quadra (pra minha mãe ir buscar correndo e eu dar gargalhada), jogar pra cima e também em cima da menina que tentava andar de patins do meu lado — tinha pedido um patins pra minha mãe, mas ela disse que só depois que eu aprender a andar de bicicleta. 


O tal do Benício não me deixava ficar com a bola. Tomava da minha mão, corria com ela, colocava no pé ou lá no alto das mãos e dizia “é assim, ó, menino”. Toda hora a minha mãe tinha que pedir para o menino deixar eu usar a minha bola. Cheguei a falar com ela “mãe, conversa lá com ele”, e ela “Meu filho, você precisa resolver as suas coisas. Diz pra ele que a bola é sua”. Minha mãe é meio pateta às vezes.


Fui ficando irritado, agitado, dei vários pulos do Aranha e soquei o chão de Hulk algumas vezes. O menino, nada. Continuava pegando a bola da minha mão toda hora, tentando me ensinar “como era”. Eu corria, corria, corria, pulava, tentava chamar a atenção dele para brincar comigo, mas ele queria mesmo brincar com a bola. E eu sem amigo, sem bola, só rindo, rindo, rindo. A veia da testa da minha mãe parecia maior, assim de longe. 


Os pais do Benício chamaram ele pra ir embora. Ele até perguntou assim pra minha mãe “ele vai também?” A mãe respondeu que não, que eu ia ficar mais um pouco. Depois que ele saiu da quadra, eu disse pra ela “agora fiquei sem amiguinho pra brincar”. Brincamos, então, eu e minha mãe, de bola. 


Antes de ir embora, porque a minha mãe disse que tava tarde, eu ainda subi no tronco da árvore e dei um pulo interessante. 



Mamãe


Estava há mais de 10 dias com o Vicente, sozinha. Estar só com ele, sem nobody else, nem para vigiar enquanto eu tomo um banho, não é mais uma novidade, mas segue me deixando perplexa pelo peso das tarefas diárias somadas à atenção que uma criança demanda. É o delírio real de uma solidão companheira e acompanhada. 


A cidade do pai do meu filho passou por uma tragédia — se é que se pode chamar tragédia um evento que tem responsável e era previsível. Comum para Pádua, de onde eu vim, mas inesperada para os cidadãos de Paracambi, que não a viam há muitos anos, uma enchente caudalosa tomou as ruas e invadiu as casas das pessoas. Vidas enlameadas do lado de fora das casas, trabalho que virou, da noite para o dia, entulho. Por isso, apesar de não ter sido afetado diretamente (não ter perdido bens materiais), o consagrado não veio ver ou buscar o filho. 


Depois de deixar o Vicente na escola, passei por um mercado estilo “loja de departamento”. Comprei uma bola azul, bonitinha, parece durável. Nem o embrulho deu tempo de conseguir, mas prometi que no mesmo dia (ou no dia seguinte) levaria o meu menino para estrear a redonda na quadra da pracinha. 


Tentando cumprir a promessa, exausta, acordada desde 6h da manhã e com a bateria no negativo, arrumei a cria. Dessa vez, sempre tentando melhorar a qualidade dos serviços prestados, levei garrafinha com água, palito de alho e a volumosa azul. Vicente estava agitado, pulando na cama, resistindo a colocar a roupa. As crianças e seus frequentes paradoxos: sabem o que querem, mas ignoram o caminho e, por isso, sabotam ou adiam o próprio desejo. Colocam dificuldades e obstáculos para as tarefas dos pais, sem compreender que estão interditando, naquele momento, a si mesmos. Fomos, finalmente.


Chegando na quadra da praça, não demorou a aparecer um menininho interessado na bola. Com toda naturalidade, me chamava de “tia” — e o Vicente começou a fazer o mesmo: “tia Gessica”. Perguntei o nome e a idade do garoto. Era um Benício, de 5 anos. Benício também é o nome do filho de uma conhecida minha, cujos stories de uma vida infantil tão mais divertida causam raiva, e até inveja, no meu pequeno, pois nem as crianças estão livres da “pequena parcela de felicidade” exibida nas redes sociais. Quando ouviu o nome do amiguinho, depois de uma breve provocação minha (sou dessas), Vicente, meio enraivecido, retrucou: “Benício nada”. 


Os pais do menino, de fora da quadra, numa mesa, incentivaram o filho a perguntar o nome do outro. Não adiantou muita coisa o seu Benício saber que estava tratando com um senhor Vicente, porque se limitava a chamar o amiguinho de “menino”. Fiquei um pouco incomodada, mas eu não posso julgar o Benício — há pessoas com quem eu falo eventualmente há meses e que não costumo tratar pelo nome. Chamar pelo nome se tornou uma coisa um tanto pessoal pra mim, quase como um carinho, um reconhecimento de identidade, que eu não ofereço sem esforço pra qualquer um. 


Tentei deixar os dois brincarem sozinhos na quadra. Fui com meu celular para a borda da praça, sentar sob uma árvore e pensar coisas de adulto. Vieram atrás de mim, uma hora. Outra hora, adolescentes entraram na quadra com uma bola pesada, o que forçou a minha ansiedade a ficar por lá, tutelando a brincadeira. Menininho vai, menininho vem, sempre com a bola. Parecia impossível para o Benício deixar o Vicente pegar a própria bola — ele queria ensinar como jogar, chutava sozinho. Nem eu, adulta, estava habilitada a partilhar o jogo com ele. Ora com as mãozinhas pro alto, ora tateando com os pés, dizia pro Vicente “olha só, menino, vou mostrar como faz”. E o meu filho? Sim, poderia escrever uma versão de “O diário de um banana”.


Aquela situação fazia os minutos se esticarem dentro da minha cabeça, e eu sentia um desconforto angustiante, uma espécie de paralisia. Apesar das asserções dos pais do Benício, gritadas lá da mesa no entorno da quadra (“Filho, joga com ele. Filho, devolve a bola pra ele”), e das tentativas da mãe-professora de educação física (“Vicente, fala pra ele que a bola é sua, que vocês vão brincar juntos”, “Vicente, corre atrás da bola e tira do pé dele, é assim”), o Benício era persistente e irredutível no propósito de monopolizar o jogo. 


Desejava que meu filho fosse capaz de resolver o impasse com o outro menino por si mesmo, de forma natural ou orientado pelas minhas poucas palavras. O que eu presenciava, no entanto, eram dois meninos desconectados: um brincando sozinho com a bola do outro, indiferente aos apelos dos pais e à minha mediação, e o outro aparentando irritação, vez ou outra se curvando na posição de Aranha e desferindo alguns murros no chão da quadra, estilo Hulk, quando não conseguia a atenção do Benício — e o direito à própria bola. 


Algumas coisas correram pelo meu pensamento. Observei a tirania do menino e a atribuí à falta de contato com outras crianças, à própria idade (crianças são egoístas e demonstram essa característica quando se sentem à vontade para isso) e, claro, ao exemplo dos pais. Como aquele casal, que em nenhum momento deixou a mesa deles para vir até a quadra, lida com disputas em casa? Como costumam lidar com as demandas do filho? 


Também refleti sobre o meu filho, cuja inação já estava me irritando. Primeiro, senti orgulho materno por perceber que o Vicente, com 4 anos, consegue partilhar um brinquedo e até mesmo cedê-lo por algum tempo sem se incomodar com isso (no começo, pra ele, estava tudo bem “só” correr atrás do outro menino com a bola). Gente, o meu filho sabe que pode se divertir ainda que não seja “tudo como ele esperava que fosse”? Será? Depois, quando fui percebendo que ele estava irritado, pelos gestos físicos e pelo pedido que me fez (“Mamãe, fala lá com ele”), fiquei matutando sobre a inabilidade de questionar uma realidade injusta e imposta, como um possível problema. E essa inação do Vicente, que não sabia encontrar palavra para o outro, foi me deixando, eu, uma adulta, angustiada e irritada com o Benício (“Que menininho chato e sem educação!”).


Em um terceiro momento, olhando de relance, o cisco saiu do meu olho. Toda aquela angústia não tinha a ver com os meninos, duas crianças sendo o que são — talvez tenha, também, uma dose de querer proteger a cria. Mas, no duro, aquela sensação de incômodo era minha comigo. Eu fui (e ainda sou, frequentemente) o Vicente: chega um alguém-desconhecido, que nem sabe o meu nome, e pisa no meu pé. Naturalmente, pela dor, eu aviso (“olha, acho que você, sem querer, pisou no meu pé”) e espero que o outro faça o que eu faria diante de uma exortação gentil e quase suplicante. Peça desculpas, tire o pé de sobre o meu e vá embora (ou mude de atitude, entregando a minha bola). O outro não faz; ele permanece pisando o meu dedinho, e a dor, crescendo. Então, novamente, eu dou o aviso: “ei, acho que você não ouviu, mas você está pisando no meu pé”. E assim, no mesmo tom e em variações da frase inicial, seguem os pálidos avisos, que não resolvem o problema e não comunicam um imperativo como: “Tira agora o seu pé de cima do meu, por favor”. Sim, parece óbvio, mas nem sempre informar apenas a sua dor ou o seu desconforto fará com que a outra pessoa entenda ou queira sair de cima do seu dedinho ou devolver o cacete da sua bola. 


A mãe do Vicente talvez tenha dificuldade de impor limites, de dizer não e de interditar o outro quando se percebe ferida. O Vicente, meu menino ainda em desenvolvimento, pode estar dando os primeiros sinais de que tem aprendido a sustentar o incômodo em si — em caras e gestos de Hulk e Aranha, em pedidos de ajuda para uma mãe que, também inábil, não conseguiu ensiná-lo, ainda, a comunicar a própria dor e, diante da impassividade da parceria, sair ou tomar para si o que é, de fato, seu. Esta habilidade me parece tão importante quanto aprender a partilhar: entender o momento de negociar e, não possível, de tirar o time de campo. Sobre as crianças, tudo isso são conjecturas, projeções de uma adulta que esqueceu para poder crescer.  


É tolo quem despreza o poder das brincadeiras. Vicente e Benício são dois meninos que, pelo abraço de uma bola, estão “vivendo e aprendendo a jogar”. E mais do que isso: são dois meninos que diariamente ensinam os pais sobre a vida e escancaram as lacunas herdadas lá de trás, da infância. O Vicente me fere e me cura todos os dias, me permite fazer mil remendos e reparar em situações e pessoas que, antes dele, estavam fora do alcance dos meus olhos: inclusive, e principalmente, partes de mim. 


O desajuste faz parte da dinâmica do aprendizado. Quando o Benício foi embora, Vicente me disse uma frase que me deixou surpresa (com essa capacidade que só ele tem): “Mamãe, agora fiquei sem amiguinho pra brincar”. Não eram dois meninos desconectados; eram dois meninos, uma bola e uma adulta reaprendendo. 


Antes de ir, o Vicente foi até a árvore de tronco grosso e inclinado que ladeia a praça. Embora ainda peça a minha mão, subiu com quase nenhuma ajuda e com uma naturalidade que, dias atrás, seria impensável. A mãe (ops, a mão) estava ali “só por garantia”. Em seguida, ele saltou no ar e caiu no meu colo, 21kg de confiança, em mais um pulo interessante.    


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