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Mostrando postagens de janeiro, 2024

O crime do padre Júlio

Obs.: Este texto contém notas de fim sinalizadas com (*), com pequenas memórias e opiniões extras. O crime do padre Júlio A passagem do tempo é implacável. Por nos distanciar dos fatos, pode acabar nos dando uma visão mais isenta e menos permeada de emoções, o que é, pessoalmente, positivo. Por outro lado, o tempo, quando incide sobre a h istória, frequentemente é capaz de apagar, esmaecer ou mesmo desvirtuar pessoas e acontecimentos.  Sobre a h istória que estamos construindo hoje: alguns vereadores da Câmara Municipal da cidade de São Paulo desejam instaurar uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) que tem como foco (ou alvo) ONGs de ação social e o padre Júlio Lancellotti.  Digo, de antemão, que não sou católica, cristã ou mesmo gnóstica, mas observo a perseguição que o padre Júlio tem sofrido desde a pandemia. Ao contrário de muitos de nós, que, por recomendação das autoridades, pôde e quis ficar em casa*, o padre Júlio, embora pertença ao grupo de risco pela idade, est...

Vai, aqui dentro

Vai, aqui dentro, uma outra angústia. Essa, estranha, diferente da habitual. Os mortos têm me cercado, e com eles toda a vida solitária e pavorosa que deixaram em mim. Tudo é silêncio agora. Uma mesa coberta de flores salpicadas, vazia. Em vão, procuro os seus gritos e até espero, ansiosa, mordendo o céu da boca, que você me repreenda. Mas, agora, você é um silêncio-sem-fim, amarelo-arroxeado.  Eu te vi brigando comigo ontem. Você era preta, brava, forte, e acusava de ainda não ter te dado um neto. Não éramos nós, porque nunca mais seremos nós. Eu me enterneci, e chorei, como agora. Depois te vi passando deitada em uma cama, deslizando. Mais masculina, mais frágil. Um alguém protestava a sua idade, para estar passando por tudo aquilo. O aparelho, a pele tesa e seca, o roxo. Poderíamos ser nós, mas então eu percebi que já fomos nós, no passado. O que me sobra, neste instante, é a náusea, esse cheiro irritando de comida temperada, com um tempero que não é o seu. Eu me vi sozinha em u...