Vai, aqui dentro
Vai, aqui dentro, uma outra angústia. Essa, estranha, diferente da habitual.
Os mortos têm me cercado, e com eles toda a vida solitária e pavorosa que deixaram em mim. Tudo é silêncio agora. Uma mesa coberta de flores salpicadas, vazia.
Em vão, procuro os seus gritos e até espero, ansiosa, mordendo o céu da boca, que você me repreenda. Mas, agora, você é um silêncio-sem-fim, amarelo-arroxeado.
Eu te vi brigando comigo ontem. Você era preta, brava, forte, e acusava de ainda não ter te dado um neto. Não éramos nós, porque nunca mais seremos nós. Eu me enterneci, e chorei, como agora.
Depois te vi passando deitada em uma cama, deslizando. Mais masculina, mais frágil. Um alguém protestava a sua idade, para estar passando por tudo aquilo. O aparelho, a pele tesa e seca, o roxo. Poderíamos ser nós, mas então eu percebi que já fomos nós, no passado.
O que me sobra, neste instante, é a náusea, esse cheiro irritando de comida temperada, com um tempero que não é o seu.
Eu me vi sozinha em uma ala onde ficam as mães com seus bebês. Lembrei do meu bebê. Lembrei dos seus bebês e que eu, um dia, em claridades já obscurecidas, fui um deles. E eu te vi de novo: como eu, sozinha; como eu, com um pouco de talvez-medo. Os leitos da morte tão perto dos berços da vida. E eu te vi de novo, vi que a sua solidão ficou sendo a minha parte da herança.
Você me dizia, repetidas vezes, como as badaladas de um sino, que eu era a "cordinha do seu coração". Eu não sei se sabia bem o significava, mas sempre desconfiei de que, se alguém puxasse, retesasse a cordinha, cairia o coração com todo o resto. Cairiam os seus olhos tristes bem perto de mim.
Dias atrás, ainda atordoada de te ver em sonho, depois de tanto tempo sem te ver, puxaram sem querer a cordinha do meu coração. Não, senhora das rosas cor-de-rosa, você pode se tranquilizar que o seu neto está bem. Muito bem, sem mim. Muito bem, mesmo longe de mim. A cordinha do meu coração sustentava a última lasca de egoísmo necessário?
Uma vez sem você, já há oito meses, uma vez sem o absoluto, já há oito anos, as águas do telhado da minha existência se foram com o vento. E eu me agarrava em ser água, em telhado, em ser raiz da minha planta. Mas, dias atrás, atordoada depois de te ver em sonho, já há tanto tempo sem te ver, um comentário desassombrado e meio maldoso cortou a cordinha e deixou cair o pêndulo do tempo. Que ele não tem saudades de mim, que pode viver sem mim.
E embora eu não acredite nisso com a força das convicções, foi o bastante para que eu conquistasse a dúvida. Talvez a dúvida (eu, que vivia obstinada em ser telhado) tenha me revelado que sou escombro. Escombro de casa caída, coração de corda puxada, tempo que desmaiou do pêndulo.
Por isso, vez vai, vez vem, uma voz me diz que: ele vai ficar bem.
Eu quero ficar com vocês um pouquinho, pra matar as saudades. Volto outra hora. Eu só quero prender o seu cabelo louro tingido de novo e me prender ao cantinho da sua cama com cheiro de mãe. Ou me prender a uma voz grave, um fonema a menos, em uma casinha laranja com cheiro de mofo.
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