Não sou feliz, mas não sou mudo: hoje eu canto muito mais





Belchior. 
Acesso em: 30 mar. 2023.

 

Hoje faz sete anos da partida deste senhor aí em cima. Sou fã, não do bigodão, mas de toda a poesia que essa face angulada escondia. Ou revelava. Afinal, a personalidade do artista em questão é tão cheia de ângulos (e sombras) quanto a geometria do rosto e os descaminhos da vida que ele “quis dar” a si. 


Procuro sempre saber pouco dos feitos e da biografia dos artistas de que eu gosto. Menos pelo que vou explicar adiante do que por pura preguiça. Sim, eu me interesso mais pela obra e, às vezes, por parte dela, por músicas específicas, e por não “álbuns”, como a galera veterana da música gosta e gosta de se gabar de gostar. Não era à toa que outros cantores diziam “baby”. Aquele que preferia “meu bem” (como eu acho lindo e cafona “meu bem”, brasileiramente lindo), el bigodón, foi me conquistando aos poucos, não sem resistência. Foi “apresentado” pelo meu ex-marido, pai do meu filho. Se já tínhamos rixas, dois leoninos dentro de uma kitnet, imagina o que não foi admitir que Belchior era, sim, o máximo. Bem superior a Chico Buarque e tão menos reconhecido na academia (que ele aparentava desdenhar, embora eu desconfie que era charme). 


Até começar, de fato, a dar confiança para o dito cujo, o que eu sabia era justamente isto: que Belchior era um cantor famoso nos anos 60/70 que tinha um grande bigode. Ah, claro, que sumiu por um tempo e a imprensa noticiou “Belchior desapareceu”, “Por onde anda Belchior?” E eu me perguntava, vendo as notícias, “Quem diabos é esse cara?” Esse era todo o meu repertório sobre ele. 


Hoje, eu ouço as músicas mais conhecidas e outras nem tanto, mas não vou ser pedante de dizer que só ouço o lado B ou que “essa é muito lado A!” Poupem meus ovários. O fato é que passeio sem pressa pelas canções deste ilustre desconhecido. Sim, Belchior permanece um desconhecido para mim. O que eu tento conhecer (na verdade, tento apreciar, tragar, como vinho ou como droga) são as músicas que ele deixou. E que são maiores do que o bigode, pode acreditar. 

 

Prefiro que ele continue sendo um artista, um rapaz latino-americano de quem eu sei pouco ou quase nada. E eu posso te explicar por quê. Não dizem que a gente precisa saber separar o artista da obra de arte? Então… Balela. Por mais que você seja bem-treinado em colocar as coisas nas suas devidas “caixinhas”, como bom virginiano (coisa que eu não sou), sempre há algo que escapa e contamina. 


De Belchior, por exemplo, eu sei, por leituras “sem querer”, que abandonou filhos, para que pudesse vagar por aí sem dinheiro no banco e sem parentes importantes. E assim foi ele, rumando pela vida, acreditando que o mundo inteiro está naquela estrada ali em frente. Sofá, cachorro, filhos, escola? Essa rotina não permitiria que surgisse um Belchior. Não pela falta de tempo, porque homens sempre encontram tempo para o trabalho e para o lazer (o ócio criativo) dentro de um casamento, considerando que há quem abra mão de si e se torne o chão de fábrica, o chão de casa, o tapete atrás da porta. Suplicando por uma explicação de quem já se perdeu em trilhas cheias de distância.


Por isso (e por outras), prefiro focar na intensidade das músicas. Em absorver toda a carga poética e erótica que Divina Comédia Humana me traz (“Vamos gozar agora?” “Na sua casa ou na minha?” “Pode ser no seu céu ou no seu inferno, meu bem!”), o nacionalismo (e o sulamericanismo, assim junto, porque eu quero) de A Palo Seco, o desgaste de um relacionamento tão bem-metaforicamente desenhado em Medo de avião, a conversa com Drummond de Pequeno Mapa do Tempo. E eu não pararia por aqui. 


Certamente, o que as músicas dizem de seu autor é superior à vida amalucada de Belchior, que não deixa de ser interessante e um caminho possível, ainda que limitado, para a sua musicografia. Desesperadamente eu afirmo, em português, que deve ter sido necessário sentir medo, medo, medo… beber em vários copos (e sentar em tantos colos), ler livros e mais livros (porque haja intertextualidade!), desgastar blusões de couro pedindo carona, mudar de rumo tantas vezes que a única opção era pedir desculpas pela juventude do próprio coração “que só entende o que é cruel, o que é paixão”. 


Não tenho dúvida, meu bem, de que você foi um sujeito de sorte, diplomado em sofrer, que não tinha orgulho do filho que o pai fez – sem sangue nas veias, com nervos de aço? Belchior, suas músicas dizem o contrário de você, mas, talvez, apenas talvez, seus filhos e suas ex-esposas concordem com essa tua autocrítica velada. Mas deixemos isso no débito do tempo, das dores que as músicas só reforçam, sem curar jamais.


Eu sei que você estava tentando conhecer o seu lugar, meu bem, e que provavelmente se foi sabendo que o único delírio possível é a experiência com coisas reais, por mais que você fugisse incansavelmente delas. Às vezes eu também quero pedir que alguém entenda a minha solidão, o meu som e a minha fúria.  


Das músicas do bigodudo, eu quero levar o ensinamento de que “a felicidade é uma arma quente” e que “eu preciso andar sozinho” para aprender a, um dia, andar lado a lado e encontrar o homem companheiro que me espera no coração do Brasil. De você, Belchior, eu quero tudo outra vez. Daqui a pouco, na próxima seção de Spotify, talvez. 

E da vida? Da vida, eu quero tudo ou nada, mas, se for pelo tudo, eu quero uma balada nova. 

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