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Equilíbrio distante

Na ânsia de evitar qualquer ânsia, pensar que você existe ainda me traz alguma paz. É curioso saber que, mesmo presente neste mundo, você tenha escolhido ser perenemente ausente. Se eu precisar, ainda que seu telefone toque, eu não ouvirei a sua voz e, caso a ouça, estará (como sempre) tão distante e inexata que vai partir meu coração desesperado. Você era um sim, com certeza, que se tornou um quando quer e, por fim, um vazio. Sua existência conforta tanto quanto me dói.

Nunca ouviste passar o vento

  «Olá, guardador de rebanhos, Aí à beira da estrada, Que te diz o vento que passa?»   «Que é vento, e que passa, E que já passou antes, E que passará depois. E a ti o que te diz?»   «Muita coisa mais do que isso, Fala-me de muitas outras coisas. De memórias e de saudades E de coisas que nunca foram.»   «Nunca ouviste passar o vento. O vento só fala do vento. O que lhe ouviste foi mentira, E a mentira está em ti.» Alberto Caeiro ( Arquivo Pessoa: Obra Édita - X - «Olá, guardador de rebanhos, - )

O retorno das formigas

As formigas voltaram. Na verdade, elas nunca foram; eu é que deixei de dar atenção ao percurso incessante, que ora diminui, ora aumenta. Fato é que a cozinha está tomada — espalham-se os pontinhos pretos, como caviar quase microscópico, pela pia, micro-ondas, paredes, rumo ao verso dos espelhos de luz. Elas gostam do escuro, feito tantas outras coisas na vida, que crescem nos subterrâneos. Essas pequenas grandes coisas em que a gente não pode deixar de reparar, sob o risco de se agigantarem por falta de atenção, de exposição, de luz. Este texto não é sobre formigas, e talvez seja um dos muitos textos que não vão pra frente, por mexerem com aquilo que se quer esquecer ou que ainda não se aprendeu a dizer. Este texto é sobre pequenas coisas que, por falta de luz, à noite, tomam a casa de assalto. E, então, nos vemos a nós: de mãos atadas, respiração ofegante, como se a linha tênue da vida, aquilo que dá alguma ordem ao mundo, tivesse se partido. De repente, não mais que de repente. Este ...

Duas crianças e uma bola

Vicente Foi uma tarde daquelas em que a minha mãe diz que vai me levar à pracinha e fica enrolando. Fala que eu estou nervoso, agitado e que “assim não dá”. Fomos.  Ah, ganhei uma bola e levei para brincar na quadra. Assim que a gente chegou e começou a usar a bola, apareceu um menino. Fingi que não entendi o nome dele (Benício), e ele, mesmo depois de eu ter dito meu nome, só me chamava de “menino”. Minha mãe perguntou a idade do Benício: 5 anos.  Eu queria correr, chutar a bola pra fora da quadra (pra minha mãe ir buscar correndo e eu dar gargalhada), jogar pra cima e também em cima da menina que tentava andar de patins do meu lado — tinha pedido um patins pra minha mãe, mas ela disse que só depois que eu aprender a andar de bicicleta.  O tal do Benício não me deixava ficar com a bola. Tomava da minha mão, corria com ela, colocava no pé ou lá no alto das mãos e dizia “é assim, ó, menino”. Toda hora a minha mãe tinha que pedir para o menino deixar eu usar a minha bola. C...

O crime do padre Júlio

Obs.: Este texto contém notas de fim sinalizadas com (*), com pequenas memórias e opiniões extras. O crime do padre Júlio A passagem do tempo é implacável. Por nos distanciar dos fatos, pode acabar nos dando uma visão mais isenta e menos permeada de emoções, o que é, pessoalmente, positivo. Por outro lado, o tempo, quando incide sobre a h istória, frequentemente é capaz de apagar, esmaecer ou mesmo desvirtuar pessoas e acontecimentos.  Sobre a h istória que estamos construindo hoje: alguns vereadores da Câmara Municipal da cidade de São Paulo desejam instaurar uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) que tem como foco (ou alvo) ONGs de ação social e o padre Júlio Lancellotti.  Digo, de antemão, que não sou católica, cristã ou mesmo gnóstica, mas observo a perseguição que o padre Júlio tem sofrido desde a pandemia. Ao contrário de muitos de nós, que, por recomendação das autoridades, pôde e quis ficar em casa*, o padre Júlio, embora pertença ao grupo de risco pela idade, est...

Vai, aqui dentro

Vai, aqui dentro, uma outra angústia. Essa, estranha, diferente da habitual. Os mortos têm me cercado, e com eles toda a vida solitária e pavorosa que deixaram em mim. Tudo é silêncio agora. Uma mesa coberta de flores salpicadas, vazia. Em vão, procuro os seus gritos e até espero, ansiosa, mordendo o céu da boca, que você me repreenda. Mas, agora, você é um silêncio-sem-fim, amarelo-arroxeado.  Eu te vi brigando comigo ontem. Você era preta, brava, forte, e acusava de ainda não ter te dado um neto. Não éramos nós, porque nunca mais seremos nós. Eu me enterneci, e chorei, como agora. Depois te vi passando deitada em uma cama, deslizando. Mais masculina, mais frágil. Um alguém protestava a sua idade, para estar passando por tudo aquilo. O aparelho, a pele tesa e seca, o roxo. Poderíamos ser nós, mas então eu percebi que já fomos nós, no passado. O que me sobra, neste instante, é a náusea, esse cheiro irritando de comida temperada, com um tempero que não é o seu. Eu me vi sozinha em u...

Ao pai do meu filho e à minha depressão

Plantei uma semente de feijão com o meu filho. Como antigamente, no algodão. Deixei na janela, à meia-luz. Havia duas sementes e um pequeno pote, pouco espaço e luz controlada. Uma delas foi crescendo, enroscou sua raiz na outra, que ainda encapsulada em si mesma, rastejava em sair do chão. Disse ao meu filho: “Olha, são duas sementes, mas só uma vai crescer. Não tem espaço para as duas. Esta aqui vai virar uma árvore e a outra, vai ser eternamente uma semente. A mais forte sobrevive.”  Hoje, quando olhei novamente o potinho no beiral, sem querer, vi que o pé de feijão despontou às alturas, como era esperado, mas me surpreendi com a suposta “eterna semente”. Ela também está crescendo e já alcança a borda do pote, embora mais tímida e contida do que a irmã, presente, com a força que a natureza e o ambiente lhe deram, nem mais nem menos. Qual delas levará um menino à galinha dos ovos de ouro?  Eu e tantas outras mães somos as que ficam, as que assistem a partida e o levante, as ...