O crime do padre Júlio
Obs.: Este texto contém notas de fim sinalizadas com (*), com pequenas memórias e opiniões extras.
O crime do padre Júlio
A passagem do tempo é implacável. Por nos distanciar dos fatos, pode acabar nos dando uma visão mais isenta e menos permeada de emoções, o que é, pessoalmente, positivo. Por outro lado, o tempo, quando incide sobre a história, frequentemente é capaz de apagar, esmaecer ou mesmo desvirtuar pessoas e acontecimentos.
Sobre a história que estamos construindo hoje: alguns vereadores da Câmara Municipal da cidade de São Paulo desejam instaurar uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) que tem como foco (ou alvo) ONGs de ação social e o padre Júlio Lancellotti.
Digo, de antemão, que não sou católica, cristã ou mesmo gnóstica, mas observo a perseguição que o padre Júlio tem sofrido desde a pandemia. Ao contrário de muitos de nós, que, por recomendação das autoridades, pôde e quis ficar em casa*, o padre Júlio, embora pertença ao grupo de risco pela idade, esteve nas ruas. Prestou assistência e distribuiu máscaras enquanto o Sars-Cov vitimava milhares de pessoas todos os dias. Então, que ele seja mal-falado e mesmo perseguido por figuras políticas e por uma certa ala dos evangélicos e dos católicos, religião que ele mesmo professa, assusta algumas pessoas. Desavisadas essas pessoas, é importante pontuar.
Mas é importante ouvir a outra parte e, para alguns vereadores de São Paulo, as ações do padre Júlio despertam desconfiança, não são vistas como naturais — mesmo para um padre. Haveria, então, algum interesse escuso ou uma série de irregularidades na conduta deste senhor que respaldasse uma CPI. Seus atos e efeitos poderiam estar no Decamerão, de Boccaccio? Vejamos.
Padre Júlio defende os interesses de gente desinteressante: são pobres e em situação de rua. Olha para onde (e para quem) ninguém quer olhar — inclusive eu e você. Fornece suporte alimentar e psicológico para pessoas em situação de rua, acolhe a população LGTBQI+, trata a dependência química como reflexo do descaso do Estado e como doença biopsicossocial, esbraveja contra a aporofobia (a fobia aos pobres) — as forças políticas e econômicas de São Paulo vem erguendo, nas madrugadas caladas de uma capital fria, muretas, percalços, bloqueios que impedem ou que tornam (mais) difícil o acesso das pessoas em situação de rua a lugares, cantinhos, calçadas, marquises, que antes lhes garantiam algum conforto ou proteção. É um padreco “de esquerda”, mas não só.
Os noticiários dos últimos meses, em especial das últimas semanas, testemunham, como fontes históricas, o crime do padre Júlio. Porém, não me surpreende o que parece deixar algumas pessoas bastante perplexas. Longe em tempo e espaço, boa parte dos cristãos do presente perderam a figura central (e histórica) do homem que inspira padre Júlio — e que é, fundamentalmente, o criador da religião que essas mesmas pessoas dizem seguir. Entre católicos conservadores, que são numerosos e não aceitam sequer a Canção Nova, e evangélicos, que elegem sujeitos como Silas Malafaia, o cristianismo que persegue padre Júlio parece ovacionar o Pentateuco e ter se esquecido da Nova Aliança.
Eu, que sou agnóstica, não leio a Bíblia, mas cresci como evangélica (batista), não esqueci o significado da Nova Aliança. Não se trata apenas de perdoar os pecados da humanidade, de uma segunda chance, mas também, e sobretudo, de um rompimento com o passado. A transformação de um deus vingativo, que exigia sacrifícios como teste de fé* e distribuía castigos. Em seu lugar, nasce Jesus, o símbolo da Nova Aliança entre Deus e a humanidade e que não se torna carne apenas como símbolo, mas como exemplo. Criança, sempre preferi enxergar Jesus desta forma: cordeiro de Deus, sim, mas, antes de tudo (mais até), exemplo de homem, pois “o Verbo se fez carne e habitou entre nós, e vimos a sua glória, glória como do unigênito do Pai” (João 1:14). A passagem nos diz que “nós vimos a sua glória”, então nada mais justo do que retomar e refletir sobre as glórias que Jesus, de fato, experimentou como homem.
“Eis o cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo”, mas Jesus não se limitou a remover o pecado do mundo. Na verdade, remover os pecados do mundo, carregar o fardo da nossa humanidade, demandou o seu sacrifício pessoal, não só na agonia diante da morte certa, mas durante a vida que ele levou enquanto homem. Jesus enfrentou os pecadores, pelo seu exemplo do que significa a Nova Aliança e esse novo deus, a quem chamava de Pai. Jesus os enfrentou também fisicamente, quando expulsou os vendilhões do templo, que estavam transformando a casa de Deus em um “covil de salteadores”. Jesus cindiu o israelitismo, que o crucificou, e fundou uma nova religião, que instaura uma ainda hoje nova (e revolucionária) forma de pensar e de ver a humanidade e o mesmo Deus — para quem acredita que seja, ainda, o mesmo deus.
Jesus se movia pelas terras do Oriente (da Palestina?) como um andarilho. Era pobre e vivia acompanhado por seguidores (seus discípulos) igualmente pobres. Parava nas casas das pessoas e pedia alimentos e água, para si e para os seus. O mesmo Jesus que poderia multiplicar peixes e tornar água em vinho tinha o propósito maior de: ensinar pelo exemplo. Seus milagres e seu perdão sempre (ou quase sempre) envolviam pobres e necessitados: alguém que o parava no caminho, que subiu em uma árvore para vê-lo, uma prostituta apedrejada, a multiplicação de pães e peixes (para que todos os presentes pudessem comer). Seus ensinamentos têm a ver com caridade, doação ao próximo (“Amai ao próximo como a ti mesmo”), acolhimento dos doentes — tudo era possível pela fé e pelo amor.
Jesus foi crucificado ao lado de dois criminosos da época, momento em que ainda aproveitou para interceder por eles: “(...) porquanto derramou a sua alma na morte, e foi contado com os transgressores; mas ele levou sobre si o pecado de muitos, e intercedeu pelos transgressores” (Isaías 53:12). Foi escolhido para o sacrifício, em benefício de Barrabás, pelo povo de Israel. Não foi o Império Romano que tomou essa decisão (impossível esquecer que Pilatos “lavou as mãos”), mas o povo ao qual Jesus pertencia — Jesus era judeu, nascido e criado entre judeus, professava fé pelo mesmo Deus de Israel.
Seu pecado talvez tenha sido afrontar, de certa forma, o status quo e as expectativas dos seus semelhantes, que não esperavam um Messias vindo do povo, nascido em uma estrebaria entre cavalos, vacas e bois, filho de um carpinteiro. Os judeus talvez não pudessem conceber que a Nova Aliança fosse firmada em termos tão simplórios, quase filosóficos, por um andarilho, por um homem em situação de rua (ou, no mínimo, um ermitão pobre). Que não trouxesse consigo a libertação do jugo romano e a instauração de um Estado judaico que afirmasse o poder do Deus de Israel e o estatuto de seu povo como “o escolhido”. Por que, afinal de contas, Deus permitiria que o verbo encarnado, Seu filho, morresse em uma cruz, como um qualquer? Por que Deus, se fosse mesmo o pai de Cristo, não lhe daria as tantas glórias que um deus é capaz de dar aos seus?
Ouso dizer que Jesus, como padre Júlio, incomodava mais aos seus do que aos outros. Jesus não chegava a ser uma ameaça ao poder romano e “pagão” — ele tinha ideias, poucos correligionários e nenhum exército. Sequer tinha a pretensão de uma revolução política e social*, como deixa claro quando diz, em Mateus 22:21, que dessem a César o que era de César e a Deus o que era de Deus. Em última instância, se Jesus fosse um tal dominador de massas que comprometesse o poder do governo local, ele não teria sido escolhido, pelo próprio povo da região, para a morte em uma cruz depois de horas de tortura, tampouco teria sido juridicamente “jogado” de um lado para o outro, por não haver, sobre ele, uma acusação forte o suficiente que pudesse justificar seu assassinato — foi morto, por fim, sob a alegação de falso testemunho e blasfêmia.
Jesus foi cruelmente sacrificado, como homem, por ser pobre e andar com pobres, fazer milagres para pobres, ensinar pobres (por parábolas, gênero textual escolhido a dedo para falar com pessoas não letradas) e por pretender, por ousar ser, ele mesmo, um pobre, o filho do Deus de Israel. Jesus foi morto pela indignação dos seus, motivada por aporofobia.
Sobre mim, bom, eu não acredito nos milagres de Jesus ou na Nova Aliança — mas confesso que a simbologia e a ressignificação da figura de um deus pela comunhão entre pares me são bastante sedutoras e poeticamente encantadoras. De qualquer forma, ainda que eu não creia que Jesus possa me livrar da depressão (como propôs uma irmã) ou da pré-diabetes ou que ir à igreja/Igreja tornaria meu filho menos agitado e mais “bem-comportado” (segundo sugeriu minha vizinha evangélica), aparentemente, eu, agnóstica, sei mais sobre quem foi, o que pensava e o que fazia Jesus do que boa parte de católicos e evangélicos.
Isso porque o tempo pode apagar, esmaecer ou mesmo desvirtuar pessoas e acontecimentos, e é o que prova a perseguição ao padre Júlio pelos seus congêneres, pessoas que esqueceram quem foi Jesus e vivem mais preocupadas com o deus de vingança do Velho Testamento. Mas a História — e a própria Bíblia, quando lida com seriedade, é uma fonte histórica — pode resgatar o Jesus original, que é testemunha de defesa, e também o próprio réu, no julgamento do crime do padre Júlio.
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*1 Obviamente me refiro às autoridades sanitárias sérias, e não a qualquer falácia ou discurso ultrajante do ex-presidente da República e de seus asseclas.
*2 Lembro com bastante frequência, quando rememoro as leituras da Bíblia, do episódio em que Deus pede para que Abraão sacrifique seu filho, Isaque, como prova de fé e, no último minuto, recua. O criador da franquia Jogos Mortais certamente leu o Velho Testamento.
*3 Eu não acredito que Jesus quisesse derrubar o Império Romano, mas sou convicta de que os seus ensinamentos, levados a sério, poderiam desbancar as bases do colonialismo e do capitalismo. Então, sim, ele foi, ainda que filosoficamente, um revolucionário e um homem “de esquerda”.
Gessica Botelho, 12/01/24
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