A sina de um texto qualquer perdido: um testamento dos meus 31
Acredito que superei a fase Bentinho. “A Capitu da Glória já estava dentro da de Matacavalos?”, ou alguma coisa do tipo. Se bem que essa reflexão sempre vai me acompanhar, considerando que, vira e mexe, estarei perplexa com as aparentes transformações das pessoas ao meu redor. Apesar dos anos, essa estupefação não mudou. Nesse ponto, eu mesma não me transformei.
Encerrado o primeiro parágrafo, simples mote “estilístico” para este texto, em uma tentativa desde já fracassada de estilo machadiano, queria dizer que amei uma abstração. Não sei se é tão comum assim. Já me peguei várias vezes fazendo a pergunta de Bentinho: “caramba, será que fulano mudou tanto assim em tão pouco tempo? Será que ele já era assim e eu não percebi?” Mas, contudo, todavia, hoje, tendo a acreditar que nenhuma das duas perguntas encontra um “sim” como resposta. Uma terceira se faz, então, necessária: “cacete, será que eu me apaixonei por uma invenção?”
Conto, agora, com meus 31 anos, idade em que a maioria das mulheres bem-resolvidas já está bem-resolvida, o que me leva a crer que eu não serei uma mulher bem-resolvida. Desde jovem, adolescente, a minha queda por construir figuras é um abismo. Lembro de perder horas, sobre o chão frio de casa, imaginando novelas. Isso mesmo que você leu: eu imaginava histórias malucas, idílicas e românticas na minha cabeça e cheguei até a escrever uma em formato de romance (ou a tentativa de um, não é mesmo?). Nem quero imaginar o que a minha mãe devia pensar sobre mim naquela época, quando me via deitada no chão “olhando pro nada”. O que ela não sabia é que a minha cabeça estava, sim, fervilhando, mas longe, muito longe dali.
Desses meus momentos, surgiam pessoas quase completas, ainda que sem nenhuma profundidade psicológica. Personagens planas, como se costuma chamar. Para cada personagem ou casal, havia uma ou mais músicas. Elas, as músicas, sempre estavam lá, e eram tão ou mais importantes do que o próprio enredo. A canção era, na minha cabeça, a moldura que sustentava o quadro, a conformação exata (ou quase) dos sentimentos e das ações. Não era difícil imaginar uma nova personagem ou um novo caso amoroso apenas a partir de uma música.
Comecei a namorar “tarde”, com meus 16 anos e uma galera idealizada na cachola. Pá-pum, beijo, namoro, decepção amorosa, depressão de Goethe, tudo em menos de dois anos. Dos 16 aos 18 anos, a minha vidinha provinciana foi, ao menos internamente, intensa e sofrida, e depois disso eu saltei do mundo conhecido para a cidade grande, mas sempre olhando pra trás. E elas sempre estiveram lá. Mesmo quando as novelas desapareceram e eu deixei de imaginar para viver (que choque!), as músicas foram o cheiro de azul-celeste que me ficaram, e seguem ficando.
E eu acho que foi assim que me apaixonei pela última vez. Primeiramente, por uma ideia, a ideia de uma ausência novamente sendo preenchida. Eu tinha me separado fazia pouco mais de um ano e meio, e começava a bater aquela coisa de querer gostar de alguém, de desejar contar o dia, no fim do dia, pra quem estivesse interessado em ouvir. Nessa lacuna, conheci uma pessoa (na verdade, “fui conhecida”, porque o camarada me enviou um convite pelo Facebook, e eu, achando que não fosse maluco, aceitei), e os papos foram engrenando aos poucos, bem aos poucos. Quando me dei conta, depois de mais uma rasteira sentimental, estava conversando com ele toda noite e... contando, mesmo que com reserva, como tinha sido o meu dia.
Passando bem a limpo, acho que foi isto: pra ele, era legal conversar comigo, por algum motivo pessoal; pra mim, foi se tornando um hábito, uma familiaridade que eu desejava ter de volta e que foi se criando inesperadamente. Era só um cara, por quem eu não tinha o menor interesse, mas que demonstrava ter interesse em me ouvir. Não fazia o “meu tipo”. O intruso se fortaleceu na minha falha, como bem dizia o Chorão, ídolo dele e artista para quem eu, mesmo nos áureos tempos de Malhação, nunca dei a menor bola. Foi ficando na minha vida, durante coisa de um mês, até eu ter coragem de conhecer aquela figura pessoalmente. Como eu beijava todo mundo naquela época, beijei esse também, e não achei ruim.
Eram longas as viagens de trem, no pior dos ramais do Rio de Janeiro de Machado de Assis, para visitar o garoto magrelo. A essa altura e incrivelmente rápido, ele já era mais que um garoto magrelo pra mim. Nas longas viagens, embalada por uma coletânea heterogênea e questionável do Spotify, eu criava mais uma figura na cabeça. Agora, fora das novelas, desenhei, com base nos poucos dados que eu tinha sobre ele, um jovem apegado à simplicidade e à natureza, um ex-usuário da verde erva, free, wild style, que toparia até viver um relacionamento aberto comigo, embora eu já estivesse apaixonada pela abstração e, portanto, nem pensasse mais em dividir a maçã. Enfim, um trilheiro que me levaria para visitar cachoeiras e sem dificuldade conheceria junto comigo, num fim de semana, sem nenhum preparo, a cidade de São Paulo. Um cara que tinha se arriscado inventando uma outra pessoa só para conseguir se aproximar de mim, tamanha era a paixão que ele nutria, mesmo à distância.
Sim, ele criou uma pessoa também, como eu. Uma pessoa que era outra, mas que era ele mesmo, em algum lugar da imaginação. Também uma abstração. E, com base na abstração dele, eu criei a minha própria abstração sobre ele, e foi por ela que eu me apaixonei (e é dela que eu me lembro, com alguma saudade). Nesse ponto, a paixão me impedia de divisar a realidade e o sonho, de compreender que ele estava mais voltado para dentro do que pra mim, e que as mentiras (eram mentiras, afinal) faziam parte de um processo antigo e interno e não surgiram apenas para me conquistar. Eu queria ser importante para alguém, lembra? Eu desejava que alguém ouvisse como foi o meu dia com interesse, com empenho, e ele, nessa época, fazia isso. Pelo visto, eu estava disposta a comprar qualquer ideia do outro para completar a minha.
Distanciada no tempo, ele era um cara a fim de diversão, “pagando pra ver”, sem medo de ser taxado de mentiroso. Nós morávamos em cidades diferentes, o que ele arriscaria por mentir pra mim? Nada, ou muito pouco. Na verdade, homens são criados para “se jogar” (claro que sempre de um lugar seguro), para “pagar pra ver” (desde que a visão seja parcial e não muito dramática, certo?) e recebem a bonita alcunha de aventureiros, de ousados, de “jogadores”. É isso. Ele só estava jogando, e eu estava me jogando no escuro, sem saber, de novo.
Eu tenho a maldita mania dos empatas: fico procurando motivo para as atitudes ruins das outras pessoas. Uma vez, há pouco, uma psicóloga me fez prometer que eu tentaria parar de “me analisar e analisar os outros”. Não preciso dizer que não deu certo, né? Perco tempo montando quebra-cabeça com as “partes” do passado de quem se abre comigo, para tentar entender e, entendendo, poder ajudar de alguma forma. Quando usado para compreender quem insistentemente nos faz mal, esse dom não é o mesmo que ser bom ou ser legal. Isso é ser pateta (o famoso “fazer origamis com meu papel de trouxa” nunca foi tão real) e viver voltado para os outros, negligenciando a percepção, o bom senso, o “sexto sentido” em troca de se sentir importante, operante, de recolher, aqui e ali, um pouquinho de gratidão. Acho que esse é o lance da dependência emocional também. Sair desse atoleiro é a coisa mais complexa de toda a minha vida, tão ou mais complexa do que controlar a vontade de jogar o celular na parede ou na cara de quem está me olhando, aos berros e em lágrimas, com aquela cara de paisagem ou de “tô nem aí, palhaça”. Tudo isso é lido pelo meu cérebro como “frieza” ou “rejeição”.
Essa mistura de impulsividade, cobrança de si mesma, autoconfiança rebaixada e complexo de salvadora da pátria, sem esquecer da minha queda por novelas e por músicas bonitinhas, abriram caminho para que ele entrasse na minha vida. Pagou a classe econômica na promoção, mas sentou na janelinha em poltrona família.
Mentiras são mentiras, ainda que possam ter um contexto. Ele não havia estudado onde disse que estudou, não tinha passado naquela prova, não estava se preparando para um mestrado, não morou fora da cidade em que nasceu nem por uma semana a vida toda, não fez o ensino médio na escola técnica, não teve um Fusca, não era um trilheiro, não curtia me levar pra conhecer cachoeiras, não toparia ir a São Paulo no improviso (aliás, ele tem pavor de improviso), é conservador e machista a ponto de não considerar abrir um relacionamento, mesmo ouvindo Raul Seixas. Está mais pra Belchior, ídolo dele também, mas sem a parte do Coração Selvagem. Como pode uma pessoa admirar tanta gente maluca (Chorão, Belchior, Raul eram doidos de pedra) e ter, ao mesmo tempo, tanta aversão ao desequilíbrio das pessoas e ao balanço da vida? Isso só se explica mesmo pelo chavão de se admirar o que não se tem. Sem dúvida, uma espécie de cobiça velada. (Viu como eu já estou falando do outro e não de mim? E, pior, justificando.)
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Escrevi este textos aos 31 anos e não imaginava que, aos 33, tanta coisa já teria mudado. Caí das nuvens, aprendi a viver um pouco mais no chão, aceitei que não se pode obrigar o outro a ser quem não é, mas que a gente pode (isso, sim) escolher o que admite ou não para si. Aprendi a amar e a ouvir Belchior de uma forma totalmente nova. Comecei a terapia e, hoje, quase um ano depois daquele outubro cinza-chumbo, que me deixou novas (já velhas) cicatrizes, falo bem mais de mim do que do outro. Então, seguindo a sina de todos os textos, que o são ou o serão, que este texto seja testamento de uma pessoa que já não é igual, sem deixar de ser, essencialmente, a mesma.
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