Ao pai do meu filho e à minha depressão



Plantei uma semente de feijão com o meu filho. Como antigamente, no algodão. Deixei na janela, à meia-luz. Havia duas sementes e um pequeno pote, pouco espaço e luz controlada. Uma delas foi crescendo, enroscou sua raiz na outra, que ainda encapsulada em si mesma, rastejava em sair do chão. Disse ao meu filho: “Olha, são duas sementes, mas só uma vai crescer. Não tem espaço para as duas. Esta aqui vai virar uma árvore e a outra, vai ser eternamente uma semente. A mais forte sobrevive.” 


Hoje, quando olhei novamente o potinho no beiral, sem querer, vi que o pé de feijão despontou às alturas, como era esperado, mas me surpreendi com a suposta “eterna semente”. Ela também está crescendo e já alcança a borda do pote, embora mais tímida e contida do que a irmã, presente, com a força que a natureza e o ambiente lhe deram, nem mais nem menos. Qual delas levará um menino à galinha dos ovos de ouro? 


Eu e tantas outras mães somos as que ficam, as que assistem a partida e o levante, as que guardam dentro de si tantas sementes, cultivadas por anos na impossibilidade. Também somos as próprias jardineiras de uma outra semente, a quem consolamos e a quem protegemos dos danos de um amor que se desfez — ou que não foi capaz de se refazer na intempérie, na falta de sol, no pouco espaço de uma casa escura e cercada de perigo iminente. 


Então, ao pai do meu filho e a todos os outros pais que abrem mão da própria responsabilidade por uma criança, deixando tantas sementes dentro de nós. Sementes à espera do tempo certo, o momento de estudar, de trabalhar, de poder novamente sonhar em crescer, enquanto você deságua os seus prantos em mesas, copos, pílulas e bocas, mundo afora, achando que engana alguém, quando não engana a si mesmo. Onde e quando você queira. Em mim, inclusive, que não posso mais querer um onde ou um quando, que sou a semente do chão, a “eterna semente”. 


Um recado a todos vocês, homens que partiram e se identificam com o desbravador pé de feijão: todas as sementes, como todas as plantas, crescem na direção do Sol. Mais tarde, mais devagar, com mais custo, a semente vai romper os sulcos, vai atravessar a borda do pote, vai se lançar ao ar, respirando — para trás, toda a solidão que vocês nos deram, por não saber jamais esperar o “tempo certo” de ser feliz. Por querer tudo para ontem, e só pra vocês. Cresceremos, acompanhadas das nossas pequenas sementes, não importa o chão de algodão ou de terra seca. Mas a verdade é que, como nossas mães, também não precisamos sequer disso, porque podemos crescer também por baixo, subterrâneas, como batatas. A semente mais forte, de fato, sobrevive, e as raízes foram feitas para romper o chão.


E à minha depressão, digo o mesmo: as plantas crescem na direção do Sol. Você pode se transformar em soluços previstos em momentos inesperados, você pode transtornar o meu rosto e devolver à boca aquela sensação metálica ou escurecer as tardes com o desespero do desconhecido. Eu não tenho mais medo (e quando eu tenho, sei te abandonar), porque eu sei que, não importa como ou por quanto tempo, as plantas sempre vão procurar a luz e crescer na direção do Sol. 

 

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