O retorno das formigas



As formigas voltaram. Na verdade, elas nunca foram; eu é que deixei de dar atenção ao percurso incessante, que ora diminui, ora aumenta. Fato é que a cozinha está tomada — espalham-se os pontinhos pretos, como caviar quase microscópico, pela pia, micro-ondas, paredes, rumo ao verso dos espelhos de luz. Elas gostam do escuro, feito tantas outras coisas na vida, que crescem nos subterrâneos. Essas pequenas grandes coisas em que a gente não pode deixar de reparar, sob o risco de se agigantarem por falta de atenção, de exposição, de luz.


Este texto não é sobre formigas, e talvez seja um dos muitos textos que não vão pra frente, por mexerem com aquilo que se quer esquecer ou que ainda não se aprendeu a dizer. Este texto é sobre pequenas coisas que, por falta de luz, à noite, tomam a casa de assalto. E, então, nos vemos a nós: de mãos atadas, respiração ofegante, como se a linha tênue da vida, aquilo que dá alguma ordem ao mundo, tivesse se partido. De repente, não mais que de repente.


Este texto é sobre ansiedade, hipocondria (ou Transtorno Obsessivo Compulsivo, vale a sua interpretação, se mais psicanalítica ou mais psiquiátrica) e, em última análise, sobre crise de pânico. São as formigas da minha mente — tão pequenas, mas sempre constantes, à espera de um momento de distração para se mostrarem gigantes. Ontem, o meu cérebro, que há tanto tempo nega, fermentou do subterrâneo. 


Há assuntos em que a gente prefere não tocar, nem em terapia. O cérebro de uma pessoa como eu é fantasioso: acha que as palavras têm o poder de tornar realidade o que é apenas pensamento. Desde criança, eu me via espantando moscas de tempos em tempos. Teve uma época em que eu achava que, se passasse perto de uma pessoa “burra” (leia-se pessoa que tirava notas baixas; minha leitura de burrice na época era, inegavelmente, burra), a minha “inteligência” poderia ser trocada pela “desinteligência” dela. Levou anos e bastante sofrimento para que, olhando pra trás, eu pudesse ver o quanto aquela menina era um punhado de insegurança disfarçado pela arrogância: parece que a única coisa de valor que eu tinha em mim mesma era a tal inteligência (ou a capacidade de fazer provas e tirar boas notas).


Espantar moscas não é fácil, porque espantar não é sinônimo de eliminar. O que acontece quando se espanta uma mosca? Sim, exatamente, ela volta em pouco tempo. Sem os recursos corretos, o que a gente faz? Espanta de novo, e de novo, e de novo… Essa é a cabeça de quem tem TOC. Era a minha forma de lidar com os pensamentos intrusivos quando criança, “espantando”. Para não “trocar de inteligência” com o colega que sempre ficava de recuperação, eu batia palmas e dizia palavras de conjuro em voz baixa — provavelmente, de teor religioso ou místico. Pessoas com TOC acreditam no poder mágico das palavras de transformar o pensamento em ação, em um dado do real, para o bem e para o mal; as divisas entre a realidade (como mundo imediato, compartilhado) e o que existe cabeça adentro devem ter caído em algum momento.


Na terapia, eu devia ter trabalhado os medos, os pensamentos intrusivos, a aproximação do velho navio, que eu sentia como um demônio à espreita. Novamente, a crença no poder mágico das palavras me fez afastar a pauta, dando voz a outras dores, a outras esferas da vida, que são igualmente importantes, sim, mas que não podem suplantar a emergência da ansiedade. Essa ansiedade que não é ligada ao mundo que eu compartilho com a minha terapeuta (e com os demais seres, humanos ou não), essa ansiedade e esses medos que pertencem ao meu mundo atípico, de um cérebro condicionado a se deter no 0,000001% ou a ver sinais/sintomas onde não existem (ou não existem da forma como eu os vejo). A crença no poder mágico das palavras faz com que a gente tenha medo de verbalizar e atrair, verbalizar e tornar real o que só existe dentro da nossa cabeça, e lá fica aprisionado, junto com uma boa parte do que nós poderíamos ser. A mesma palavra que “salva”, quando ritual, é a palavra que causa temor — a palavra como materialidade. 


Ontem, a essa hora, meu coração trotava. Uma parte de mim achou que era um ataque cardíaco, porque eu tinha um coração que saltava e uma respiração inválida. Outra parte de mim, racional e ainda dominante, sabia, tinha certeza absoluta de que eu estava no meio de uma crise de pânico. Infelizmente, apenas se saber em crise não é (nem nunca foi) o suficiente para cessar a crise. É, na verdade, muito difícil não se saber em crise de pânico se você já passou por alguma, em algum momento da sua vida, mesmo que longe em tempo e espaço. A inquietação, a tristeza avassaladora por um futuro que, de repente, não mais que de repente, some do horizonte… Os lamentos, o choro, o desespero e a dor física. Não se esquece uma experiência de quase-morte: o fio da vida se rompeu, e você ainda está, aparentemente, vivo. 


O mundo caiu, e nada lá fora faz qualquer sentido. De súbito, todos os medos subterrâneos invadiram a minha cozinha e foram se alastrando, como pequenos pontos pretos, por toda a casa, cobrindo as paredes. Eu me vi, então, não mais em casa. Lembranças da minha mãe (e do chá de picão-preto, que ninguém nunca mais me ofereceria), temores pelo meu filho (a quem eu não poderia mais criar, caindo que estava no velho navio, sufocada sob o casco). Meu corpo, essa morada do medo, se desfez por várias vezes no banheiro, o que só confirmava a sensação de finitude. O meu corpo, que eu mesma não sei se (na verdade, quando) é fonte ou alvo de todos os temores. O meu corpo, cujo mau funcionamento se torna hipervigilância, que se torna medo desmedido, que se desdobra em ansiedade, que se manifesta em mau funcionamento do corpo. Qualquer sinal — sempre atenta. Olhar para o corpo, não olhar para dentro. Criar mundos fantasiosos e prisões reais para não sentir a realidade? Ou, sentindo demais a realidade, de tamanha a dor, eu sou capaz de criar mundos fantasiosos onde posso me aprisionar do real? Ter TOC é, sem nenhuma dúvida, uma condição dialética


Este é um texto do medo, escrito pelo medo, dirigido pelo medo: o medo de sentir medo. Não qualquer medo, mas aquele medo. Houve, claro, gatilhos e o escalonamento da ansiedade pré-explosão. Houve bulas e mais bulas de antioneoplásicos em uma mesma semana e, em seguida, uma piora considerável do meu intestino — outro cara que merece à exaustão os meus exercícios dialéticos. Houve uma possível virose, trazida pelo filho em vômitos intermináveis, e todo o estresse da preocupação com essa vida que depende tanto de mim (e há, sempre, o pensamento de que essa vida depende de mim!). Houve uma colonoscopia de resultado normal e a não melhora dos sintomas. Houve a dor, que antes, nunca antes, havia. E com ela, o medo do desconhecido, daquilo que os médicos e os exames podem não estar vendo. O medo das entranhas do corpo, como uma espécie de projeção do subterrâneo da minha mente e do meu coração, sepultado já. 


E onde estava eu que não consegui interromper o curso? Que não me dei ao trabalho de verbalizar e lidar com o escalonamento da ansiedade? Não sei, talvez tentando sobreviver em meio ao caos. São tantas camadas de ansiedade, é tão duro lidar com todas elas, que eu acho que a mente acaba criando refúgios — pena que sejam sempre tão ruins. A hipocondria também pode ser um pedido de socorro, desviado, torto, mas uma forma de dizer “olha, aqui, eu existo”. Eu, corpo. Eu, mente. Eu, eu. Na contramão, como todo patógeno, a hipocondria é um desvio de atenção tão brutal que pode acabar matando o hospedeiro e a si mesma.


Eu nunca vivi nada terrivelmente profundo como o TOC/hipocondria. Nada que pudesse me conduzir de forma cega a uma experiência de quase-morte. Ter uma crise de pânico é da ordem do visceral (“Será que o problema seria o meu fígado? Ainda bem que a médica passou uma US de abdômen”). É tão visceral e desestabilizador (todas as torres da existência, de repente, caíram, alô?) que deve doer menos do que a própria morte, do que a própria doença. Ser uma pessoa normal, com um cérebro típico, lidando com um câncer: sim, dor física, sofrimento psicológico, vontade de viver e dar continuidade aos planos, o que às vezes é possível, às vezes, não. Ser uma pessoa atípica, com TOC, lidando com uma doença pouco provável ou imaginária: tortura. Não há chão, não há perspectivas, não há passado nem presente, muito menos futuro. Há fantasmas, e só. 


No dia seguinte a uma crise de pânico, você realmente parece um gato escaldado que tem medo de água fria. Qualquer pensamento, movimento, palavra, tudo remete ao pânico do dia anterior. O medo de que se repita e que você não consiga superar. Mesmo os momentos bons, em que a gente se sente melhor, estão com os olhos postos no abismo: “estou bem, mas e…?” ou “estou legal, que bom, mas eu nem deveria estar pensando nisso”. É necessário ter paciência. Repito para mim mesma que, ontem à noite, eu entrei no fundo de uma piscina de gelo, onde permaneci por horas, invisível e sem alento. Hoje, estou com hipotermia. O corpo já não está sob baixa temperatura, mas ainda treme e está pálido, espantando uma mosca aqui, outra ali.


Hoje, apesar do medo, foi um dia de escavar os subterrâneos. Minha mente não esteve só nem parada em momento algum, sempre tomada pelo medo de um quando ou pela persistência de um porquê. Amanhã, que não sei como será (como nunca soube antes, mas agora esse trecho está sublinhado), vou estar melhor? Espero que sim. Espero que seja como todo trauma, de que a gente vai se recuperando aos pouquinhos. Certamente não vou esquecer, e nem posso. 


Amanhã, quero jogar mais um pouco de luz nos pontinhos pretos da minha consciência, quero falar sobre a ansiedade e sobre o meu medo de doenças para que elas sejam o que elas são: reais. É o poder materializador das palavras, né? Se usadas como o recurso que me faltou na infância, elas podem ajudar a espantar as moscas (ou as formigas) antes que elas tomem a casa de assalto, de noite, no escuro, só. 


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