Hey, girl, don't carry the world in your grocery bags
Volto do supermercado com as bolsas leves e a cabeça pesada. São tantos os pensamentos sobre dinheiro, futuro, como conseguir um emprego, fazer ou não concurso (como se fosse questão de fazer e passar, simplesmente), meu filho e suas necessidades básicas, meu ex-marido e seu absenteísmo e descortesia habituais. Até quando podemos esticar as cordas da vida sem arrebentar?
Este texto é pessoal, sem a intenção de ser outra coisa. Em meio ao fluxo-rio de acontecimentos, eu não tenho conseguido chorar. Corrijo: não consigo chorar quando e como eu gostaria, mas basta um dito do meu filho, a vontade no meio da tarde de fazer aquela ligação (e não poder, simplesmente), um filme de mafiosos que costura a vida familiar complicada de um homem frio. Eu diria que, na verdade, é uma personagem econômica na linguagem por “não saber o que dizer”, frase repetida por De Niro ao longo de “O Irlandês” algumas vezes. Basta algum estímulo despretensioso para me fazer pensar na realidade, para me impedir de ignorar os fatos, que lá estou eu em lágrimas e secreções.
Eu não sei se estou entupida. Certamente estou com sinusite, então estar entupida fisicamente é uma consequência quase lógica. Ou seria uma consequência quase lógica, somática, estar entupida por não poder mais transbordar? O despejamento, agora, seria uma forma de derrota, uma desistência caótica que eu não posso ter.
Ontem ouvi um podcast em que o psicanalista falava de “economia psicossomática”, e a anfitriã, que conduz o programa como se ela mesma estivesse sendo analisada e interrompe o convidado um sem-par de vezes (não deve ser à toa que se chama “Meu inconsciente coletivo”)... Enfim, a anfitriã, uma colunista e escritora famosa, insistia em dizer que não entende o uso do termo “economia”, como se economia pudesse se referir só ao poupar, a reservar recursos. Fui ficando irritada.
O psicanalista tentava, aparentemente em vão, esclarecer que economia, nesse caso, remete à administração de recursos e que, não é raro, o aparelho psíquico “joga” para o corpo o sofrimento que seria incapaz de suportar, sob pena de adoecimento mental. O corpo seria, então, uma esfera sob domínio da psique. Compro a ideia, acho interessante, e penso que o sofrimento psíquico pode ser frequentemente tão grande que adoecem corpo e mente, sobretudo entre nós, hipocondríacos. A mente “empurra” para o corpo o que não poderia tolerar naquele momento; o corpo, coitado, reclama, e a gente fica “sabendo” que não está bem de saúde; cruza para a mente, agora em um nível mais próximo da consciência (sim?), que, já acometida pela interpretação neurótica dos sinais do corpo, não reconhece o estrago que ela mesma fez, mas entende como “novidade”. O saldo dessa economia toda? Estou doente, vou morrer.
De forma ou outra, hoje me peguei relembrando o ano de 2016, meu ano sabático com a hipocondria (vou usar o termo psicanalítico, e não o que eu recebi na época, “transtorno obsessivo compulsivo”, ou TOC, para os íntimos). Nesse ano, o carro parou no meio de uma avenida, e a motorista não conseguia fazer nada além de olhar para o painel e girar incessantemente a chave. Os outros automóveis passavam pelos lados, buzinavam atrás, a poeira de fumaça invadindo o carro, perplexo. Foi só no final do ano (na verdade, mais “em definitivo”, meados do ano seguinte, 2017) que a motorista resolveu largar a chave na ignição e… descer do carro. Lá fui eu andando pelo meio da avenida, dando setas e sinais apenas com o meu corpo, o meu tão castigado corpo, que não aguentava mais.
É preciso confiança até para atravessar uma rua, é preciso confiança para acreditar que você não vai morrer ao cruzar o sinal, dentro ou fora do carro. Que seja fora do carro então. Afinal, a morte pode te encontrar nas situações mais bizarras. Que medo então era aquele, medo de quê? Da morte ou da vida? Certamente da vida, essa vida que, perdidos pai e marido, não fazia muito sentido pra mim, ainda que eu estivesse redescobrindo quem eu era, do que gostava, o que desejava. Mas quem disse que eu queria saber? Eu não queria, talvez ninguém queira. Fato é que o TOC foi embora quando eu espantei, a vassouradas, o medo da morte, ou o terror da vida. Ora, cacete, se era para continuar viva (e estava provado, àquela altura, que, pelo menos em pouco tempo, eu não faria nada contundente a esse respeito), que fosse uma vida minimamente boa. É pra morrer? Então morro aqui, no trevo da Cacuia, atropelada por um ônibus, sem beijo no asfalto como desejava Nelson Rodrigues. É pra viver? Só se for viver sem tanto medo de morrer (ou de estar viva?).
Comprei um leite fermentado de litro e descobri que era falso (que é falso). É leite desnatado com suco de laranja. Ah, e adicionados “vitamínicos”. Acabo de descobrir que a maltodextrina, um plágio do açúcar, é um adicionado vitamínico. Hipocondríacos leem os rótulos com mais frequência que a população em geral, e também verificam as datas de validade, pensam na conservação dos medicamentos. Esta hipocondríaca em recuperação, bem aqui, hoje é capaz de conviver com uma geladeira que, eventualmente e a bel prazer, exala odor químico. Desisti depois da terceira troca e deixei nas mãos de deus. Na verdade, nem sempre, como ontem. Agradeço ao pós-venda da Consul, impecável em te fazer sofrer.
Vi também o rótulo do Toddy e do biscoito (em minha defesa, passei os olhos). É evidente que todos eles têm uma quantidade impressionante de açúcar adicionado. Por que essa obsessão? A minha com o açúcar? Não! A da indústria de alimentos por adoçar tudo que está nas gôndolas dos supermercados (e das farmácias também). E a coisa piora quando se fala de produtos específicos para o público infantil. Se existe a “pink tax” (ou taxa rosa) para o consumo feminino, deveria haver (deveria haver, não, há!) a “sugar tax” para as crianças. Novamente fico pensativa: por que ensinar, desde tão cedo, que o mundo precisa ser doce para ser bom? Não há qualquer papel formativo na indústria de alimentos.
Filosoficamente, as “comidinhas” para crianças nos educam, desde bebês, a esperar que tudo seja doce, palatável, administrável. Ganhamos, com isso, além da tendência aumentada a diabetes mellitus, a ilusão de que o mundo é bom, Sebastião. E o mundo, meu bem, o mundo não vale o mundo. Eu plantei um pé de sono e não consigo dormir! Você entende? Os empresários das grandes corporações te vendem leite fermentado falso (ou cheio de açúcar, para embalar a cantiga de enganar do capitalismo). Se você (ou seu carro) morresse no meio da Estrada Lago do B, até os carroceiros passariam por cima. É só você. Como diziam os Beatles, em “Hey Jude”, “You're waiting for someone to perform with / And don't you know that is just you?”
A mão amiga que você tanto espera, a confiança que ela te passava, não existem mais. Aquele otimismo diante da vida que tanto te encantou era fruto do absenteísmo e de uma quase absoluta inexperiência de estar no mundo como o mundo é, desencantador e nada, nada doce. Ele não será o seu apoio, ele não será, porque ele nunca foi. Saiba.
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