Eu não te amo mais, e não consigo amar mais ninguém depois de ter amado você
Évora, 31 de maio de 2023.
Eu não te amo mais, e não consigo amar mais ninguém depois de ter amado você.
Sinto que todo o meu encantamento foi retido naqueles meses de cegueira completa. Momentos em que eu vi, eu podia ver, mas eu escolhi não ver. O que eu não via, mas sentia, sim, isso era tão mais valioso. As lacunas do que eu não sabia, do que você não mostrava e mesmo do que era torto, eu preenchia com retas fantasias ou com a ilusão de que o amor domina tudo, é capaz de mudar, endireitar castelos, reacender as nossas luzes, trazer a verdade à tona em um mundo de mentiras.
No entanto, eu te vejo hoje, e a minha versão atual, um pouco mais equilibrada e menos carente, um muito mais preocupada, não seria capaz de amar o produto de nós que você se tornou. O produto das nossas almas dentro de cada um de nós é tão vasto, profundo e aberrantemente doloroso. O produto dos nossos corpos é perfeito, circula pelo mundo quase autônomo, dá e recebe amor de um jeito natural, egoísta e altruísta, é uma síncope original, sem deixar de ser autorado em cada traço. Um rosto e um corpo em que se misturam as nossas vozes e os nossos suores orgânicos. Eu sempre te disse que os corpos se entendiam melhor do que as almas. Os nossos corpos e as nossas almas, sobretudo.
Eu estou vazia sem você. Eu estou vazia por tanto de você que coube em mim e já não cabe. Eu estou vazia porque você ocupou cada espaço meu com os seus vazios. E as lacunas? Eu já não consigo. Quem dera eu pudesse escolher não ver de novo, mas a paixão não cega os que atravessaram os rios que eu atravessei por você.
Quando vier da rua, compre pão. Se tiver dinheiro, traga também um doce de leite, porque a vida é amarga, mas continua. Pelo menos, e em tese, por mais 35 anos.
Liana E.
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