Since you took your love away


Existem passos e tempos para entender o que aconteceu com a gente e entre a gente. Modos também. 


Ontem senti muita falta da minha mãe e só ontem, oito meses depois, consegui dizer algumas palavras pra ela. Não foi um texto; pra ela, tinha que ser uma interlocução direta (nós nunca nos comunicamos por terceiros, as farpas sempre foram diretas). O amor, quando tinha que ser, quando foi amor, igualmente. Eu escolhi (na medida em que se pode escolher coisa do tipo), então, responder alguns comentários antigos dela em fotos minhas do Facebook. 


A palavra é, desde que eu me lembro de mim mesma, o meu modo de entender o mundo. Pensando nisso, acredito que a terapia teria me feito bem desde o início. Estar em terapia não deixa de ser, ainda que seja uma definição simplista, um modo de palavra. É o momento em que você se senta, pensa (ou não) e escolhe as palavras pelas quais vai comunicar as suas experiências a outra pessoa. O analista não conhece os seus pensamentos diários, sua rotina, partes do seu passado e presente, suas reações diante da frustração e do medo, por exemplo. É você quem vai pescar, em um mundo de palavras, o modo de encadear as ideias e contar para o desconhecido quem é você. 


Minha mãe era uma figura complexa, como todas as pessoas que conhecemos bem e a quem dedicamos algum tempo de reflexão. Não era um personagem plano, nem à primeira vista. Forjada em uma infância difícil, ela conseguia ser, às vezes ao longo do mesmo dia, fonte de calorosos beijos, palavras de carinho, risadas debochadas e pancadaria. Conversando com uma amiga querida, que também enfrenta dificuldades com a mãe, me peguei lembrando do sentimento de segurança e confiança que, apesar dos pesares, eu nutria pela minha mãe na infância. Na verdade, eu não sei se, naqueles tempos de criança, existiam os “pesares”, ou se eles foram se revelando na minha adolescência, quando eu fui construindo o meu próprio edifício de escolhas, que não batiam exatamente com as dela para mim. 


Passei por algumas etapas no entendimento de quem foi a minha mãe, e esse processo está longe de acabar. Com a morte de quem a gente ama e com a continuidade da nossa própria vida, percebemos que a história dessa relação continua sendo escrita, reeditada, revista. E o ideal é que seja assim; significa que nós continuamos a compor uma interioridade, que se refaz. Estamos vivos de fato e de direito, e não apenas sobrevivendo (como me parece tantas vezes, aliás). Um corte é, além de uma futura cicatriz, a revelação do sangue e o início de um processo de cura. 


Houve um momento da vida, cedo ainda, em que eu descobri a relativização (ou contextualização). Fui surpreendida pela noção de que as pessoas podem ser mais do que boas ou más; elas podem ser compreensivas e generosas em dada condição, egoístas e cruéis, em outras, ou tudo isso junto e ao mesmo tempo. Entendi também que a “dada condição” é um porquê momentâneo, que informa e conforma uma reação ou comportamento, mas que existem milhares de outras “dadas situações” no passado, que acabaram por condicionar aquela reação ou aquele comportamento. Eu, por exemplo, fui tantas vezes agressiva quando me sentia abandonada, o que se explica pelo fato de que eu estava, dentro da minha perspectiva de relacionamento, sendo abandonada por alguém que eu amava e que dizia me amar (e abandono/rejeição causa dor em qualquer ser humano capaz de sentir). Essa é a “dada situação”. Isso me fez má? Me fez apenas um animal agressivo? Esses momentos dizem tão mais de mim a ponto de formarem a primeira imagem que uma pessoa associa ao meu nome?


A relativização, essa parte normal do desenvolvimento cognitivo humano, mas que algumas pessoas, aparentemente, não alcançam nunca (principalmente no aspecto político). Com ela, eu descobri que a minha mãe tinha certas atitudes que se explicavam pela infância (e pela vida) duríssima imposta a ela. Fora a educação de outro tempo (aqui, educação é sinônimo de criação pela família) e o abismo geracional e educacional (agora, sim, educação como educação escolar e formal) entre nós duas. Quando eu nasci, minha mãe já não tinha mãe e pouco tempo depois perderia o pai; ela tinha 37 anos, eu fui a quinta e última de cinco filhos, o ano era 1990. Estudou pouquíssimo, escrevia muito mal a lista de compras (e eu, que me formei em Letras, lembro exatamente dos mesmos erros cometidos e de quando eu comecei a escrever as compras, que ela ditava). Recordo de ouvir, a infância toda, que o bonito era a mulher se casar virgem — pensamento que eu endossava, mas que se chocou com a realidade da minha própria geração e com o apelo do corpo quando, eu mesma, perdi a virgindade com um namorado, aos 16.


Ouvi muitas palavras que, até hoje, adulta, eu considero pesadas. Sentia um mal-estar por não conseguir relevar — como a minha irmã mais velha — nem rebater à altura, como a outra irmã, anterior a mim. Ter tanta raiva, ainda que sabendo os motivos que a levaram àquilo, era um nó na percepção que eu tinha de mim (e um defeito a corrigir). Na minha cabeça, ela era assim porque, afinal, a mãe dela (a avó que eu só conheci por histórias) tinha sido profundamente abusiva. Também cresci ouvindo que ela, sendo filha, passou por muito mais e nunca abandonou ou desrespeitou a própria mãe. Se isso era verdade? Não sei e provavelmente não vou saber. Se for, afirmo que o débito desse sofrimento retido continua sendo pago. 


Minha mãe não teve terapia e talvez nunca tenha tido a chance de escolher as palavras que comunicassem à própria mãe como ela se sentia diante de tamanho desamor. Colocar o sentimento em palavras era desrespeitoso. Essas palavras, que informam o desamor e a sensação de abandono/rejeição, ela dedicou, sobretudo, às filhas. Eu mesma ouvi, com muita frequência, até os 18 (quando saí de casa) e, depois, amiúde, por telefone, até o dia em que ela foi obrigada a calar, novamente, toda aquela dor. Perco a conta de quantas vezes eu escutei que tinha abandonado a “própria mãe”, que eu não quis estar ao lado dela para “aprender a viver”, para ouvir os conselhos que eu precisava para a vida. 


Consciente, eu estava tão consciente, mas não conseguia não sentir raiva da minha mãe, ou pelo menos guardar essa raiva até que ela secasse por dentro e se tornasse, talvez, inexprimível. Eu não fui capaz de ser uma filha como a minha mãe; as palavras fluíam em profusão (no começo, ainda criança, menos violentas do que chorosas), mas elas eram “chantagem emocional”. Demorou um tempo para eu entender que a relativização não significava perdão, muito menos um estado ascético diante da ofensa. 


É perfeitamente possível entender que uma mãe abusiva, um pai alcóolatra, uma família disfuncional, o machismo da sociedade, a violência física e o abuso psicológico dos parceiros, a falta de trabalho digno, a sopa de ossos, a violência da família, a baixa escolaridade, a alta taxa de natalidade… Sem interrupção e na batuta ritmada do abuso e da violência, foi se formando aquela personalidade complexa, um misto de amor exacerbado com hiperreatividade e desconfiança em meio mundo. Agora, eu me pergunto: minha mãe é espelho de quantas e quantas mulheres pobres da sua época?


É perfeitamente possível (e presumível até) entender que pessoas como a minha mãe podem magoar profundamente um filho. De onde ela tiraria, afinal, se não de si mesma, repertório de amor e compreensão? E ela tirou, muitas e muitas vezes, leite de pedra, dando a mim e às minhas irmãs uma quantidade absurdamente superior do amor que ela mesma não tinha recebido.


Foi possível e bem mais demorado (e doloroso) aceitar que eu, consciente de tudo que ela viveu, posso não chegar a perdoá-la, mesmo vivendo na pele a maternidade solitária — e entendendo, como nunca achei que fosse capaz, o que é estar under pressure com um filho 24/7, lidar com seus próprios medos e traumas e tentar, dentro das suas crenças e possibilidades, fazer o melhor.  


Hoje, eu me assisto gestando a mãe-filha do Vicente, que eu sou, e digerindo a minha mãe-filha, que você foi e é. Uma das muitas portas que a maternidade destrancou em mim é a que me permite dizer que eu entendo, eu acolho e eu abraço, mãe, os seus ângulos. Eu sei o que é ser boa, má e os dois ao mesmo tempo. Eu sei o que é chorar na fila do supermercado porque, depois da partida da minha mãe e da própria assunção como mãe, eu ainda não tinha tido tempo hábil de chorar. E, mais do que isso, porque eu, finalmente, entendi, como numa epifania de Clarice Lispector. E eu não vou poder te dizer, nunca mais, as palavras que ficaram guardadas em mim e as novas que eu aprendi depois que você se foi. Não deu tempo, nunca dá. 


Não sei se isso significa o perdão (se perdoar alguém pressupõe esquecer o mal, ainda não é hora). Dizem que perdoar é lembrar sem sentir dor — e se isso, sim, for o perdão, ainda não é hora. Se perdoar for se reconhecer nos erros de alguém, eu estou te perdoando, no gerúndio literal. No dia em que eu te perdoar como mãe, no futuro do subjuntivo, terei perdoado a mim mesma como a filha incompleta que eu fui, no passado, e como a mãe tão imperfeita que eu sou, no presente e no futuro do indicativo. 


Saudades dos carinhos, das palavras breves e emocionadas. Saudades da dureza de pedra de um coração sangrando. Perdão não ter tido tempo de entender que não precisa ter “um motivo” para cair em lágrimas “do nada” quando se tem uma vida de calos, lacunas e perdas prestes a desabar na sua cabeça, no meio da tarde ou da madrugada. Amo você. 


Obrigada por ter sido, com o seu encerramento, a minha iniciação como mãe.


All the flowers that you planted, mama, in your backyard

All died when you went away

I know that living with me, baby, is sometimes hard

But I'm willing to give it another try


Nothing compares

Nothing compares to you

     


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