Barbie da contracultura, eu?
Me programei para, mais tarde, assistir ao filme da Barbie. Ainda não tenho considerações sobre o enredo porque estou me poupando de ler críticas, resumos, spoilers que possam, de antemão, direcionar (muito) a minha opinião enquanto apreciadora de filme/arte. Algum pré-conceito (temos, aqui, uma palavra-chave para este texto) é sempre possível, e até esperado: sei que o filme tem viés feminista/crítico, ao mesmo tempo que funciona como peça de marketing reverso.
Há uma grande euforia em torno deste filme, assim como houve (e há) sobre o uso das inteligências artificiais para produção de conteúdo (acabo de ter a frase corrigida pela IA do Google Drive). Tão distantes dos meus anos 90, durante os quais eu mesma brincava de Barbie, nos dias correntes, é difícil encontrar um assunto que, internetizado, não caia nas graças e nas garras do público consumidor de posts e produtor de comentários. Todo mundo tem, quase invariavelmente, uma opinião superficial sobre as coisas — seria este texto um case? (Provavelmente, sim, mas prometo voltar a ele, ou publicar um outro, depois da sessão de cinema.) Com a Barbie, cujo padrão estético foi revisto e criticado nas últimas duas décadas, não tem sido diferente.
No entanto, o que me faz escrever agora, sem ter visto o filme, é um outro fenômeno que não tem relação com o filme como obra de arte. Comenta-se, nos últimos dias, no mundo afora das redes sociais, um incômodo com mulheres e meninas que estão indo aos cinemas vestidas de rosa. O rosa… Uma cor de “menina”, uma cor ligada ao mundo “feminino”.
Eu sou uma menina dos anos 90, uma mulher-mãe dos anos 2020. A sociedade, da qual a família não se aparta, fatalmente me educou e condicionou a ter uma postura feminina, a usar o “rosa”, em oposição ao “azul” (quem não se lembra das sandices da ex-ministra Damares Alves?). Não só eu, mas também as outras meninas de antes e depois, cada geração a seu modo. Eu nunca fui muito fã do rosa (e não pretendo mesmo ir ao cinema toda cor-de-rosa), mas minha sobrinha, dois anos mais nova e com quem eu brincava de Barbie, sim. Digamos que eu nunca me encaixei exatamente nas expectativas de uma menina, tampouco escapei de obedecer a elas. Usava um rosa aqui e ali, mas minha cor preferida era (e ainda é) o verde. Amava ver novela na televisão com a minha mãe, mas não tinha saco para espichar os cabelos na chapinha ou tentar usar o batom (rosa) da Avon. O que eu quero dizer com tudo isso é: umas mais, outras menos, as meninas foram e são educadas para exibirem um conjunto de traços associados, pela comunidade, ao que é ser mulher ou ser “feminina”.
Muita coisa parece ter mudado da minha infância para cá. Estreia, com grande repercussão e bilheteria, nos cinemas, a minha boneca Barbie, interpretada pela deslumbrante Margot Robbie, que também deu vida à vilã Arlequina, parceira de crime do Coringa. Vejo pilhas de críticas e desdém ao fato de que mulheres e meninas estão indo aos cinemas vestidas de rosa, como a Barbie. Eu mesma, nos meus pensamentos, já exclamei: “Que bobagem! Ridículo”. Mas por que uma cor, desde sempre colada à ideia de mulher e que estampava as caixas da Barbie em toda e qualquer edição da boneca, é agora vista como “ridícula”? Spoiler: não é a cor, é o gesto.
Se, ao invés de mulheres vestidas de rosa para assistir ao filme da Barbie, tivéssemos mulheres, fãs do mundo Marvel, fantasiadas de Arlequina, com sensuais seios quase à mostra e dois rabos de cavalo, azul e vermelho, o desconforto seria o mesmo? Em primeiro lugar, essas mulheres fãs de Marvel existem, e disso a sociedade já sabe, principalmente o capitalismo. Eu sou uma delas (bem mequetrefe e restrita ao universo do Batman, cabe esclarecer), conheço várias outras. Nós já existíamos lá nos anos 90, mas nos tornamos consumidoras (no sentido estrito, vide compradoras) desse nicho da cultura pop, meio nerd, meio geek, não faz tanto tempo assim. Na vida e na arte, continuamos, porém, minoria de protagonistas: entre uma Gal Gadot aqui e uma Scarlett Johansson ali, pululam as Arlequinas, suporte de homem, psiquiatra que extrapola os limites do cuidado em nome de um sentimento doentio de amor incondicional. Por que a Arlequina não incomoda nem aos homens (e essa é fácil de responder) nem às mulheres? Por que eu, mulher, acho um tanto “ridículo” mulheres na fila do cinema vestidas de rosa e carrego, no bolso da calça, uma cabeça de Arlequina? Muita coisa parece ter mudado da minha infância para cá, mas não exatamente como a gente esperava.
Socialmente, apenas nos cabe o papel passivo, de coadjuvante de um homem ou de protagonista vazia. Como público, de espectadora que assiste quietinha, sem reclamar e sem se engajar (e juro para vocês que a IA do Google Drive está sugerindo que eu troque o “espectadora” por “espectador”. Simbólico, né?). O engajamento das mulheres causa incômodo, mal-estar, mexe com as estruturas de uma sociedade que se acostumou ao nosso silêncio (na verdade, ao nosso silenciamento) por séculos, milênios de organização patriarcal. Um outro exemplo de como não somos bem-vistas quando ultrapassamos a fronteira do decorativo ou da participação socialmente tolerável para uma mulher é a atuação da primeira-dama, Janja, recentemente noticiada pela Folha de S. Paulo como “algoritmo” (evidente coisificação cibernética) e como alguém que “gera incômodos em aliados” do presidente Lula.
Para ser fiel aos fatos, mulheres sempre “participaram” das decisões políticas e econômicas de territórios, países, Estados-nação, mas o lugar que nos é permitido não passa do segundo plano ou do pretexto. A imensa (relevante, sem qualquer ironia) participação das mulheres está circunscrita aos limites da alcova, da cozinha, a uma Helena causadora da destruição de Tróia, a uma Helena que troca bebês na maternidade para salvar o casamento da filha e que passa toda a trama sendo alvejada por um genro mimado e egocêntrico, a uma Eva que se permite transgredir e a quem é atribuído, pelas eternidades cristãs, o ato de desobediência de um homem “confuso” (o famoso coitadinho). Sempre que uma mulher se levanta em papel ativo, crítico, exibindo traços alinhados ao “masculino”, como ambição, planejamento, voz e poder, é rapidamente abafada, criticada ou morta.
O descontentamento com o rosa nas salas de cinema bebe nessa fonte. Estamos diante do esboço da ressignificação de um dos símbolos contemporâneos do feminino. Antes representativa das meninas e suas brincadeiras de boneca, a cor rosa agora, diante da tônica do filme, é apropriada, como parcela da cultura pop, pelo feminismo. Jogando a corda um pouco mais distante: embora a sociedade espere que meninas e mulheres performem os traços femininos “romantizados”, esses próprios traços são sinônimos de fraqueza e vistos com uma certa hostilidade. A sua ausência, porém, também causa repulsa, porque, então, falta “feminilidade” — são as meninas mais “brutas” e menos “vaidosas”, como eu, que se transformam em mulheres “desleixadas”. De outro prisma, ainda no caleidoscópio (insano!) de expectativas sociais sobre o que é ser uma mulher, quando os traços “femininos” (com destaque, aqui, para maior emotividade, vaidade, certo desdém pela violência e pela brutalidade grupais) estão presentes em um menino ou em um homem, é comum que a gente se depare com uma face crudelíssima da misoginia, no ponto em que ela conflui com a homofobia: são os meninos “viadinhos” e os gays “afetados” ou, mais emblemático ainda, “afeminados”.
No meio de tantas cobranças por “ser mulher”, ao passo que “ser mulher” também significa ser odiada e estar alienada de si como sujeito, excluída de participação política ou condenada ao poder “de alcova”, assistir ao filme da Barbie se torna quase uma obrigação. Vestir rosa tem incomodado gente “de bem”, que parece mordida com o nosso (apenas virtual) apoderamento de um símbolo que nos foi emprestado por uma indústria cultural masculina e misógina. Indústria que não admira mulheres, suas capacidades intelectuais, sua liberdade de ser quem são e de dizer, ao mundo e a si mesmas, o que é “ser mulher” em traços básicos (ou de simplesmente dizer o que não somos, que somos humanas, não categorizáveis e diversas como todo ser humano). Se esse elefantinho rosa está se revelando um elefante branco no meio da cultura pop do patriarcado, talvez eu, menina dos anos 90 que brincava de Barbie, e você — que pode nunca ter ouvido falar na boneca (difícil, né?) mas que é uma mulher ou foi uma menina em algum momento —, apenas, talvez, nós devêssemos ir ao cinema, e de rosa.
Essa sociedade, afinal, ama ou odeia mulheres? Parece odiar mulheres na sua realidade concreta, seja qual for, e amar os símbolos de feminilidade, desde que eles não signifiquem, de nenhuma forma, pressionar as estruturas de poder. O amor é lindo, mas o amor com voz é loucura. E somos todas loucas, Evas, Barbies, em alguma medida e ainda que o inverso.
* Parece que, se o objetivo de Hollywood e Marvel era usar o roteiro da Greta Gerwig para um marketing reverso da boneca e como forma de alavancar a própria indústria de cinema, deu certo, hein? Enquanto não conseguimos nos apartar da cultura a que pertencemos (considerando que isso seja possível, para acompanhar a utopia de alguns), podemos pensar sobre ela e usar seus produtos como tijolinhos de contracultura.
Gessica Botelho, 27/7/23
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