Personalíssima
Crônica é um tipo de texto (ou seria gênero textual?) em que se conta uma história sobre a qual se faz uma reflexão. Em curtas linhas, essa é a definição que eu mais usei quando, nos últimos cinco anos, um aluno me perguntava “O que é uma crônica?”
Outro dia, que poderíamos chamar de “ontem”, com a cabeça povoada pela ansiedade, entre tantos pensamentos e louças sujas, pensei “será que eu sei fazer uma crônica?”. Depois, recordando a definição misturada ao que eu, quase sempre, faço com os textos que escrevo, concluí que sim. Pode não ser uma crônica estruturada, do tipo que faria a festa em uma coluna de jornal ou revista, mas não deixa de obedecer ao principal do conceito: são reflexões que faço a partir de acontecimentos (banais ou não) da minha própria vida. Ou, jogando o anzol mais longe um pouco, mas não sem propósito, seriam acontecimentos reinterpretados à luz das reflexões que me chegam depois e que, frequentemente, não têm nada a ver com eles.
Pois é. Vamos dizer que eu escrevo crônicas, crônicas personalíssimas. Vejam como me caem bem o itálico e o extrato sonoro (outra nomenclatura técnica dos meus tempos de tutora) desta palavra: personalíssimas. Saudações, seu José Dias!
Antigamente, lá pelos anos 1990, quando eu era criança-estudante, os livros didáticos tinham cara de livros didáticos: capa bem-pensada, título: subtítulo, logo da editora (eram as mesmas, quase todos os anos, de um certo grupo Abril). Podiam ser consumíveis, os meus preferidos (nos consumíveis, você podia escrever, riscar, desenhar, devorar), ou não — escrever em um livro didático não consumível, que seria entregue para uso no fim do ano, era uma blasfêmia que todos faziam, principalmente na contracapa. É quase imperativo ouvir a voz de um adulto dizendo que “no ano que vem, outra criança vai precisar desse livro”. Fui aluna de escola particular e tive o privilégio de poder riscar os livros didáticos (e de guardar durante anos, empoeirando nos cantos, mas vai que eu quisesse saber como foi meu desempenho escolar aos 7 anos?). Mas, se você foi aluno de escola pública, provavelmente seu livro foi do tipo não consumível, e pode ser que você tenha apenas “tomado conta” do livro, pelo ano que te cabia, ou “cuidado” dele, pensando também nas próximas gerações de alunos que usariam aquele senhor.
Meu filho não está, novamente, comigo. Essa questão, de todas da minha vida, parece indissolúvel. Uma lista de necessidades que não se complementam e que não se satisfazem da vida que eu posso lhes oferecer: eu, adulta, preciso trabalhar para pagar contas de adulto e da minha criança, que também já tem pequenas dívidas, credenciadas por mim. No mundo grande, trabalhar tem exigido, mais e mais e mais e mais e mais, tempo. No mundo pequeno, minha criança demanda, mais e mais e mais e mais e mais e mais, tempo. Eu me recordo, a essa altura das reflexões, de uma frase-clichê muito verdadeira, embora rarissimamente aplicada (oi, seu José, como vão os parentes?): é preciso uma aldeia para criar uma criança. Criar uma criança: talvez criança, mais pelo som do que pela etimologia, que eu desconheço, seria “algo que se cria”. E como criar reclama tempo, recursos, disposição física e mental, braços e cabeças! Que eu, além de mim, não tenho (...como vão os parentes? — responde, em eco, seu José Dias, com um meio-sorriso malicioso na boca).
A vida cotidiana é a tônica da falta. Com meu menino presente, falta tempo para mim, para o trabalho, para o tédio, para os textos, para o banho, para o gato, para os dentes, para, para, para, por favor. Com meu filho ausente, falta a vontade de mim, de textos (nem sempre, porque são, também, refúgio), de banho, de dentes, de beijo, de gato (de gato, então, nem se fala). Sobram as preocupações com ele (comeu? comeu o quê? dormiu? dormiu bem? tomou o remédio? que horas? pode me atender agora? ele está aí?), sobram as rezas em uma boca cética (“proteja meu filho, que ele esteja bem, que durma em paz, cuidado, sagrado, amado”), sobram as dores de tensão pelo corpo, sobra a ansiedade pura de querer ele perto de mim e de me saber, com os recursos da vida que eu posso oferecer, insuficiente.
Mas ele tem pai. Essa frase, que eu escuto repetidamente e repito para mim mesma, como um consolo, significa que meu filho tem mais do que eu tive, muito mais, mesmo. Eu deveria ser grata, eu deveria reconhecer, eu deveria valorizar, eu deveria, eu deveria, eu deveria, mas eu, por fim, de tanto dever, fiquei devendo e, nas palavras de quem me diz, não faço nada. Um viva aos narcisistas!
O que o pai do meu filho não sabe (como tantos outros pais) é que uma criança é criação e criador. Como o livro didático da minha infância, ensina (e se faz criador de um mundo que, sem ele, talvez não seria possível) e aprende (é transformado, não só pelos rabiscos e pelas letras, mas pela apreensão de um mundo que, sem o seu leitor, não seria visível). Sim, meu filho é um livro. Meu livro. Consumível, escrevo diariamente páginas e páginas da minha própria existência, que, modificadas assim que repousam na folha de papel, voltam como texto novo, inédito (mas cheio de notas de rodapé, nas quais me reconheço) que me ensina, me move e me transporta. Não consumível, é tesouro que precisa ser resguardado do uso, das intempéries da vida escolar (como um copo d’água sobre a mesa de estudos, uma orelha — quando se poderia usar marca-páginas — e milhares de rabiscos sem sentido na contracapa, fora as atividades feitas à caneta, aquelas que não dá nem para apagar depois). É tesouro que os pais precisam poupar das amarguras da vida humana: como uma discussão que não precisava acontecer ali e naquela hora, um grito — quando se poderia falar em voz baixa ou esperar a aula acabar — e milhares de idas e vindas sem sentido na balança, fora as promessas de união e de família, aquelas que não dá nem para apagar depois. Como dois adultos que levam a filha para almoçar depois da escola, e, de repente, nunca mais.
Eu juro que não queria que este texto fosse confessional e tão personalíssimo, mas o ato falho já me denunciou lá em cima, quase de saída, que assim seria. E não teve escapatória. De qualquer forma, um filho é um livro do qual não basta “tomar conta”, dominar, vigiar, esperar o tempo passar garantindo a sua sobrevivência, mas uma obra de que os pais precisam “cuidar”. Cuidar implica pensar no coleguinha do próximo ano, que vai precisar usar aquele livro e ter que apagar, uma a uma, com borracha pequena, cada frase ou desenho feito a lápis no passado. Ou, então, ter que lidar com as marcas à caneta, canetinha, giz de cera, que o tempo não apagou (talvez só tenha borrado e confundido, deixando tudo mais tênue, mas permanentemente presente). Cuidar exige dedicação, sair do próprio corpo, viver em uma espécie de falta de si mesmo, por estar transferido para os interesses e para os desejos de outra pessoa, pelo menos em parte. Acho que cuidado e amor podem ser sinônimos. Acho que eu só sei me sentir amada se for cuidada, e só sei interpretar amor pelas mãos do cuidado.
Há dias e dias. Dias em que a ansiedade permite um ensaio. Noites em que o cansaço e a urgência de desabafar — sobre um filho distante, um pai “braço”, que “toma conta” e não cuida, uma mãe à flor da pele, mas que não consegue chorar com o mais terno dos beijos de novela —, há noites que não permitem mais do que uma tentativa de crônica. Literatura barata. Literatura?
O meu livro didático de português, do Cochar & Magalhães, de uma editora em que eu trabalhei por metonímia, com sua Carmen Miranda em destaque, me ensinou que crônica é puxar um acontecimento e fazer, dele, reflexões. Eu, aluna da vida, mãe, aprendi, com o livro e com o meu ato de escrever, que crônicas também podem ser o inverso: reflexões/pensamentos que vestem os acontecimentos, como rei, bobo da corte, menestrel, juiz ou moça triste na janela pensando na sua “tônica da falta”.
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