Cantarei o amor que não sinto (será que eu tô emocionada?)



Temporariamente cantaremos o amor, ainda que ele tenha se refugiado mais abaixo dos subterrâneos. E ao que parece, Drummond estava certo: nos nossos tempos, o amor foi escamoteado para as profundezas, envergonhado de existir. 


Eu já amei algumas vezes, fui amada outras e umas tantas não.


Quando falamos só “o amor”, “eu já amei”, “fui amada”, o senso comum detecta o amor romântico, de tão colado que ele está à imagem do sentimento amoroso. Acompanhando a maioria, dele mesmo é que eu estou falando dessa vez.


O amor passa, hoje, por uma ideia de anulação, como se tivéssemos chegado a um estado tal de depuração que nos basta sentir (sem viver ou dar prova) ou, pior, não sentir amor pelo outro, apenas por nós mesmos. É a fase do “amor próprio”, do “eu primeiro”, do “ficar feliz sozinho/a”. Não que eu discorde, mas acho que me calça melhor, e para uma grande parte das pessoas, um “não estar infeliz sozinha” ou “estar confortável sozinha”. É plenamente possível curtir a própria companhia, se levar ao cinema, reinventar uma receita que sempre dava errado (e vibrar com isso), descobrir novos jeitos e uma certa graça acolhedora na solidão. Tudo isso que as redes sociais deram de incentivar nos últimos tempos, em contraposição à famigerada “dependência emocional”. 


Estar só e bem é uma fase necessária a qualquer um, já como dizia Axl Rose et al. em “November Rain”: “Everybody needs some time on their own”. Como disse, longe de mim contrapor essa ideia. Na verdade, eu a vejo como uma prima distante de outro fenômeno atual e cibernético, que vou resumir encaixando um termo bastante conhecido nos aplicativos de relacionamento: é proibido (ou pelo menos vexatório) estar “emocionado”. 


“Estar emocionado”: demonstrar interesse, dar atenção e tentar ser agradável com o outro, dizer que gostou do encontro e convidar para o próximo, ou, em última instância, responder mensagens de WhatsApp sem fingir ausência ou desinteresse. Sim, escafandristas, por aqui, na era da internet banda larga e dos dispositivos móveis, cuja promessa era facilitar a interação, a linguagem amorosa comum consiste em paradoxalmente não ser amorosa. Estamos no meio de uma queda de braço do desinteresse, em que vence o que mais se ausenta e mais confunde a cabeça (e o coração) do outro — ainda que o vencedor esteja tão ou mais “emocionado” (internamente, claro) do que o vencido. 


Quebramos o mote da “comunicação em tempo real”, que parece funcionar apenas no mundo corporativo. Ao contrário do amor, o trabalho nos exige respostas quase imediatas, ainda que fora do horário de expediente. Aliás, achei que só tivessem sobrevivido as “demandas” e os “prazos”, mas dizem, à boca pequena, que algumas pessoas ainda conhecem o tal de expediente (e tomam um chopinho depois dele, com amigos). 


Eu estive emocionada algumas vezes, e também fingi não estar outras tantas. O amor romântico não foge ao egoísmo: é um olhar voltado para o prazer que vem do outro, que busca a doçura (as borboletas na barriga) que, naquele momento, somente este outro causa em mim — e esse segundo “eu” deve ser então convencido. Ele não deixa de ser uma projeção de mim. Essa ideia não tem nada de nova, é terreno pisado e repisado da psicologia, e está longe de um ataque ao amor: é uma defesa coerente com o discurso de ego e prazer “em si”, tão famoso nas redes sociais, sobretudo pela porção em que parece se opor à dependência emocional. 


O dependente emocional seria, a julgar pelo próprio termo, em uma primeira leitura, alguém que “depende de emoções” para estar feliz ou mesmo para se sentir vivo. Há alguma semelhança entre esse rótulo e o “estar emocionado”, não? Para aquém das explicações da psicologia, seguindo apenas por esse caminho mais “cru”, um dependente emocional e um emocionado são pessoas que dependem de emoções para viver (talvez e sobretudo, do amor romântico). 


A maior similaridade entre esses termos, porém, que suplanta as definições científicas, é de ordem pragmática e social: no mundo das redes sociais, que é agora o próprio mundo possível, “dependentes emocionais” (entre aspas mesmo, fora do contexto científico) e “emocionados” (entre aspas mesmo, como se fosse possível não o ser) são pessoas fracas, centradas no outro (nenhuma mentira maior) e que precisam urgentemente de terapia para aprenderem a viver para “si”. Só nos é lícita a comunicação em tempo real, de madrugada inclusive, se for para solucionar problemas e demandas de trabalho.  


Também nos dizem repetidamente, dentro do fluxo interminável de informações, que a vida de fato não tem sentido, e que cabe a cada um de nós dar um sentido à própria vida. É uma ideia bonita e poética, embora pouco aplicável. Digamos que não somos exatamente criadores absolutos da nossa psicologia. Estamos mais próximos de uma colcha de retalhos inicialmente tecida por outras mãos, e as cores que emendaremos dali em diante obedecem, sempre em alguma medida, com ou sem terapia, às cores iniciais que escolheram por nós. 


Particularmente, acho que o “sentido da vida” não é tão arbitrário assim, mas não me eximo da responsabilidade de continuar tecendo e emendando a minha colcha, do jeito que me for possível a cada momento. Já as ideias das redes sociais, uma vez massificadas, vão se tornando mais um senso comum (que, como todo senso comum, pode ser aprisionador) e se aproximando da linguagem melíflua da propaganda.  No entanto, se dar um sentido à própria vida é, de qualquer maneira, um papel que nos cabe, qual seria o demérito em viver à espera do amor? 


Este é o meu ponto neste longo texto. O amor, romântico ou não, não pode ser excluído, subalternizado na existência humana. Mesmo o malfalado amor romântico, o estar “emocionado” ou depender de emoções para viver (e, aqui, eu não falo de dependência emocional como traço patológico, como doença), nada disso se aparta de uma filosofia de vida. Vivemos pelo dinheiro, pela fé (a devoção a um deus ou a uma estrutura religiosa), pela família enquanto instituição, pela profissão, por ideias, por sonhos artísticos e de consumo, pela sede de conhecimento. São muitas e diversas as formas de ir encaixando as palavras desordenadas para que, ao som da nossa batuta, se organizem em um texto legível e cheio de significado — para cada um de nós, o leitor que realmente interessa.


O amor (e uma vida em busca de “amores” ou a dedicação ao cultivo de um único “amor”) não é uma perda de tempo se é ele quem te dá a sensação de fazer sentido, de tempo bem investido. Estar apaixonado, demonstrar emoções ou interesse, ansiar pela correspondência do sentimento amoroso (ou responder mensagens no momento em que lê) não são coisas estapafúrdias, de outro mundo, muito menos de gente “fraca”. São necessidades reais, fisiológicas e psicológicas de seres humanos. 


É uma ideia torta anular o amor enquanto possibilidade. É um caminho sem volta, que estamos percorrendo, apartar o amor das filosofias de vida de uma pessoa, daquilo que ela pode usar para “dar sentido à própria vida”. É até um pecado acreditar em um amor ascético, pois amor sem prova é fé sem obra. 


Estar em busca do amor, da completude, de uma companhia com quem se possa falar de tudo. Hoje acho um tanto de bobagem? Sim, é verdade, mas considero igualmente tolo julgar quem ama e dá sentido à própria vida em torno da busca ou da experiência amorosa. Assim como é uma ofensa às características básicas dos mamíferos imaginar que se possa viver sem ficar, em alguns momentos, fatalmente “emocionado”. 


Aliás, tudo isso é teoria (será que não tem como não lembrar da Rita Lee?). É amor filosófico, amor como acesso a si. Já a paixão, prova contundente do amor, não se interessa por palavrório: braços e pernas em uma cama — uma ou tantas vezes, anos depois, todo os dias — balbuciam mais de amor do que as palavras, como dizia Manuel Bandeira, em sua “A arte de amar”:


Se queres sentir a felicidade de amar, esquece a tua alma.

A alma é que estraga o amor.

Só em Deus ela pode encontrar satisfação.

Não noutra alma.

Só em Deus – ou fora do mundo.


As almas são incomunicáveis.

Deixa o teu corpo entender-se com outro corpo.

Porque os corpos se entendem, mas as almas não.


Outro dia eu lembro das decepções e do mundo fantasioso do amor. Hoje não, hoje eu cantei o amor que não sinto, pronto. Sou mais romântica do que os românticos. Já podem me expulsar das redes sociais. 


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