Duas mães no cantinho do pensamento




Hoje vivi uma situação que, embora não tenha me prejudicado, me deixou bastante irritada e reflexiva. 


Meu filho tem 4 anos, estuda em um EDI (Espaço de Desenvolvimento Infantil) de Campo Grande-RJ – não vou identificar porque esse não é o objetivo do meu relato. Sou branca, de 33 anos, cursei faculdade pública (Letras), sei me expressar adequadamente na fala e também na escrita. Domino as principais regras da norma padrão, tenho um vocabulário razoável e costumo me sair bem em discussões e situações sociais. Esses são meus privilégios. Na outra mão, a das desvantagens, sou uma mulher que se tornou mãe solo (eu poderia parar por aqui) e que está atualmente desempregada, vivendo de freelas. Moro sozinha com meu filho, pago aluguel, não tenho família por perto (250 km de distância) e perdi meus pais dentro de um intervalo de 8 anos – minha mãe, como alguns sabem, há 8 meses. 


Na creche em que meu menino estuda, as mulheres imperam. Professoras, auxiliares de turma, coordenadora e diretora, todas são mulheres, como eu (são?). Para ser honesta, só vi um homem por lá, provavelmente professor de educação física. O horário formal de entrada, pensado por algum gênio da Secretaria Municipal de Educação do Rio, é 7h30; a saída, para o período integral, às 15h30. Poderia tecer comentários sobre o quanto esse horário é custoso para as mães que trabalham fora (sim, porque “dentro” o trabalho não tem hora para começar nem pra terminar), mas alongaria demais o meu texto. Algum grau de reconhecimento da nossa rotina fez com que as mulheres do EDI aceitassem 8h como tolerância (na verdade, as informações são tão escassas que eu não sei se é uma norma da prefeitura ou um jeitinho da escola). Passando das 8h, ali entre 8h e 8h20, precisamos assinar um caderno informando o motivo do atraso. Qual é a consequência de assinar o caderno? Não sei, nunca me disseram. 


Levo meu filho para a escola de Uber – felizmente, não dependo de transporte público, que é escasso em Campo Grande. Moro relativamente perto, cerca de 15min a pé, sem criança, e 25min, com criança. Para poupar a cria, eu levo de Uber, o que me faz depender das variações de preço e de tempo do aplicativo. Via de regra, corre tudo bem. São mais privilégios que eu tenho. Hoje, a situação que eu vivi, que não diz tanto respeito a mim quanto ao outro (à outra, na verdade), me fez enxergar que nem todo mundo tem noção do quanto é privilegiado (privilegiada(s), na verdade). 


Cheguei na escola 8h04, 8h05, atrasada. Havia já outra mulher tocando o interfone, com o filho do lado. Fazia sol, e não era um sol ameno – não sei se na Zona Oeste do Rio de Janeiro o sol ainda tem o poder de ser ameno. A coordenadora da escola, uma mulher branca, jovem, bonita, sempre bem-vestida e maquiada, veio atender o portão. O menino da outra mãe, quando viu o portão abrir, se enfiou corredor adentro. Sem contestar, como a maior parte das crianças (e de nós), ele seguia as regras. Portão aberto, criança na escola. Mas o que veio a seguir me chocou, enraiveceu a outra mãe e deixou nossos filhos, de 4 anos ou menos, na calçada, embaixo de um sol quente, para que as mães ficassem no “cantinho do pensamento”. (Será que já estudaram em Pedagogia que isso não funciona?)


A moça bonita disse que deveríamos esperar porque a professora estava em atividade, não trouxe o caderno (essa não é a regra, afinal?) e, quando questionada pela outra mãe, que teve o despropósito de dizer que estava atrasada para o trabalho, contra-argumentou que “o horário de entrada é 7h30”. E, então, lentamente, como um cisne branco, deslizou para dentro dos dois portões. Eu e a outra mulher ficamos lá esperando por mais uns 7-8min, tempo suficiente para que os dois meninos escalassem as grades verdes e roubassem um pouco mais da nossa já exígua paciência. Passado o tempo, ela foi embora com o filho, dizendo que ia levar ele pro serviço mesmo, irritada, contrariada. Nenhuma das explicações (o ônibus atrasou, morar longe, atrasada para o trabalho) foi suficiente para que a coordenadora trouxesse o famigerado livro e liberasse a entrada do menino. A gente tinha mesmo que ficar no cantinho do pensamento. 


E é assim que funciona a sociedade. Mulheres, depois que são mães, se tornam apenas mães. Perdemos os nomes, a identidade, o tempo, a saúde física e mental. Ganhamos um amor que a sociedade, a mesma que não nos vê, cobra que seja incondicional, perfeito, ilimitado. A “outra mãe”, porque eu mesma não perguntei o nome dela, é preta, mora longe, depende do transporte público escasso de Campo Grande, trabalha fora e com horário de entrada e saída, é solo ou, no mínimo, sobrecarregada ao extremo (pelo pouco que eu pude inferir das suas sucintas e raivosas palavras), tem dois filhos (e a mais velha já leva o irmão à escola algumas vezes). Essa realidade é familiar pra você? Bom, para a coordenadora do EDI, não. 


Apesar de atuarem em uma escola pública, essas mulheres parecem encapsuladas nas suas próprias realidades. São pressionadas pelo Estado, na figura da SME e da “regional”, obrigadas a trabalhar em situações adversas e ganhando mal. Todos os brasileiros sabem, em uma medida ou outra, o quanto é duro ser um professor no Brasil, e a situação me parece pior quando se trata de ensino infantil. O que me deixa com raiva, mas não surpresa, é que essas mulheres não deem o passo necessário: na condição de oprimidas, não reconhecem seus próprios privilégios e não olham para quem está embaixo com um pouco mais de empatia. Como diz uma frase atribuída a Paulo Freire (aliás, leitura obrigatória para estudantes de Pedagogia), “quando a educação não é libertadora, o sonho do oprimido é ser o opressor”. Aliás, mulheres da escola do meu filho, se vocês pararem de oprimir a gente que está aqui embaixo, quem sabe a gente gritar junto com vocês contra quem está em cima?



Que tipo de educação estamos dando aos nossos filhos? Essas moças foram educadas por uma família, antes de tudo. Que educação eles recebem na escola? Não adianta fazer pintura africana no rosto e contar a história da Pretinha de Neve enquanto se deixa uma mãe preta, que usa transporte público, provavelmente solo, atrasada para o trabalho e mofando embaixo de sol com uma criança pequena. Não venham nos aplicar o cantinho do pensamento. A gente age, na esmagadora maioria das situações, apenas como pode, e não como quer ou deseja. Minhas queridas, nós, mulheres-mães, já recebemos castigo de todas as esferas da sociedade. Não precisamos que vocês, mulheres brancas, funcionárias públicas, que chegam e saem de carro, que podem faltar ou se ausentar do trabalho, que estão “livres” às 15h30, que, sobretudo, não são mães, venham tentar ensinar qualquer coisa por aqui. Antes disso, reconheçam o lugar de privilégio e façam o trabalho como se deve. 


Fico me perguntando quantas vezes a gente passa por violências institucionais (desse tipo e de outros) e se cala. Muitas, são muitas. A pressa, a sensação de que “não vai dar em nada” e, no caso específico da relação Estado-filho-mãe, o medo de que nossas crianças sejam maltratadas, em uma espécie de represália porque suas mães ousaram dizer não ou indagar um “por quê?”. Penso também se envio este texto para a escola, se escrevo um relato objetivo e entrego para a diretora ou se só “deixo pra lá” — pelo bem do meu próprio filho e porque, talvez, a outra mãe já tenha se esquecido ou nem esteja com todo esse rancor que eu me dei o direito de sentir por ela. 


Sobre a escola, não pretendo crucificar ninguém; sei que existem dias difíceis para qualquer um sobre a terra, mas também sei (com mais certeza ainda) que os dias difíceis de quem cria um filho sozinha são quase todos os dias. E que a sociedade simplesmente não nos vê – o Enem, pelo menos, jogou o assunto na roda, e eu aposto que a grande maioria dos adolescentes não sabia nem como começar. Sim, os filhos também são cegos e surdos para o trabalho e para a desumanização de suas mães. Eu absolutamente não via a minha mãe como ser humano; ela era apenas a minha mãe. 


A gente espera ansiosamente ser vista. Mais do que isso, com audácia, queremos ser acolhidas e validadas, sobretudo por outras mulheres. Então, a dor acaba carregando as tintas na indignação quando a violência vem de quem deveria devolver uma palavra de compreensão (ou mesmo fazer a vista grossa que a vida não faz). E já que falar e explicar não tem sido suficiente, espero que a gente comece, como tem feito, a gritar: de dor, de pavor, de indignação. 


Ao que parece, vocês, sociedade, não nos ouvem. Mas as invisíveis também têm voz. E se fazem sozinhas um ser humano em apenas 9 meses, parem com dor dilacerante, amamentam, cuidam, amam, trocam a vida pela do outro, sozinhas, sempre sozinhas, elas  podem perfeitamente, juntas, cavar orelhas no mundo surdo.

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