Ora direis, ouvir estrelas?

Aviso de gatilho: este texto contém altíssimas doses de pessimismo/ realismo e exibe conteúdos relacionados à capacidade de ser muito trouxa. Há cenas/ trechos em que você pode ter acesso, acidentalmente, a temas de língua portuguesa. Não recomendado para quem vive em Nárnia e pretende continuar iludido.


Recentemente, fui desligada da empresa onde trabalhei pelos últimos cinco anos. Sim, “desligada”. Esse é o eufemismo que o mundo empresarial resolveu abraçar para suavizar a ideia de uma demissão. Um dos meus últimos roteiros para vídeos tratava, justamente, das figuras de linguagem, de como elas são importantes para tornar um texto mais expressivo – e, no caso do eufemismo, para fazer com que pessoas se sintam menos próximas do inferno quando precisam jogar outras na fogueira.


Pessoas? E o que são as pessoas? Quais traços de “humanidade” separam pessoas de animais? Costumo dizer que tudo surge de pessoas, todo o bem e todo o mal, mas, com certo aperto no coração, também sou obrigada a admitir que muitas das que cruzaram o meu caminho nos últimos anos preferem a saída penosa. Penosa pra mim, pelo visto. Como diz acertadamente Belchior, em uma das músicas que eu mais amo, “eu estou muito cansado do peso da minha cabeça, desses dez anos passados, presentes, vividos”.


Falando da mais recente decepção, foi uma pessoa (pessoa querida, pelo menos pra mim) que, sabendo que eu iria me mudar, assinar um contrato de aluguel e dar uma grande virada na minha vidinha, decidiu não me dar um mínimo sinal de que eu seria “desligada”. Ela soube antes, tanto da demissão quanto das mudanças. 


Sentei na frente de duas pessoas que, mais do que “superiores”, eu considerava amigas, expus minhas fragilidades e planos. Poderia ter escutado um “acho melhor você esperar um pouco” ou “a empresa está passando por umas mudanças aí”. Bater na carga para o burro entender, né? Seria sacanagem com qualquer um, mas houve agravantes que não caberiam neste texto. Nada me tira da cabeça que o aviso prévio funcionaria muito bem em alguns casos, para que o “colaborador” (eufemismo cínico para “funcionário” ou “servo”) conseguisse assimilar a saída, se despedir dos colegas, deixar a função encaminhada para outra pessoa (ou não). Que, no mínimo, não fosse na hora do almoço de uma segunda-feira. Coincidentemente (aqui, encontramos uma ironia), no começo da manhã, a gestora imediata (uma das duas amigas da onça) tinha me enviado uma lista de retorno de problemas apontados por mim, para que eu mesma verificasse se estava tudo certo, antes de ser demitida na hora do almoço. O problema, então, nunca foi a qualidade do meu trabalho, infere-se. Na hora do almoço, convocada para uma reunião (ou seria um “papo rápido”, como ela gosta de dizer) no meio da rua.


Duas amigas, duas pessoas. A amizade, que parecia bilateral, só partia de mim. Fica o ensinamento, que já é bastante persistente na minha vida, de não confiar em pessoas. Mas, afinal, o que são pessoas?   

Anos atrás, quando morava em uma república, fiz amizade com uma das meninas. Saímos algumas vezes, compartilhamos comida, momentos, sorrisos. Um amigo dela tentou suicídio e eu fui junto para conversar com ele, experimentada que sou (e estou dizendo isso para que fique claro que eu tinha sinais de amizade da parte da menina, como tive das minhas “chefes”). Comecei a namorar e ficava bem menos em casa. Ela, então, passou a se incomodar com tudo e, um dia, tivemos uma briga pelo grupo de whatsapp da casa. A linda moça estava chorando na cozinha e eu, vermelha de raiva no quarto. Desci as escadas para conversarmos pessoalmente; os olhinhos azuis dela apertadinhos de chorar. Em certo momento da conversa (aí eu já não lembro mais se foi pela internet ou cara a cara), ela me disse que não importava tanto a nossa conversa, porque eu já estava mesmo de saída da república. Ali eu percebi que havia tratado como rivotril quem me julgava um mero dramin ocasional. Mas, como dizem, no geral, ela era uma boa pessoa.


Essa minha “amiga”, de anos atrás, e as minhas chefes “amigas” me dispensaram consideração apenas enquanto eu servia de alguma maneira. No fechar das cortinas, ou no frigir dos ovos, não valia mais o esforço (nem a ética). “O anel que tu me deste era vidro e se quebrou”.


Posso recuar mais ainda no tempo. Para 2016, ano pós-morte do meu pai. Morava em um apartamento dividido com outras duas meninas, que já estavam nele quando eu entrei (eram as locatárias do contrato). No começo, a relação não poderia fluir melhor. Apesar do luto, eu era animada, cozinhava uns macarrões bem doidos, mas que todo mundo aprovava. Mas, como nunca escondi de ninguém ali, eu estava de luto, e lutando para não viver aquela dor. Consegui por um tempo, até que transbordei (por dentro). Adoeci mentalmente, não saía mais do quarto durante o dia, ou sumia de casa e só voltava à noite. Larguei a faculdade, meus trabalhos, meus casinhos. A cabeça em outra dimensão, sempre operante, em um sofrimento contínuo e silencioso; eu flutuava sobre cabelos (o chão do meu quartinho foi grosseiramente atapetado pelos fios que soltavam da minha cabeça, todos os dias e, como disse uma das minhas “amigas” de apartamento, poderiam formar uma peruca). Remédios, embotamento emocional, e a “irmã” (sim, chegaram a dizer que eu era como uma irmã) deixou de servir por não conseguir lavar o banheiro (minha parte da limpeza da casa) até domingo à noite. Tivemos uma briga e, pasmem, fui convidada a me retirar até o fim do mês. Como eu estava fragilizada e doente, pedi desculpas por ter sido grosseira, abaixei a cabeça, mobilizei todos os bons momentos e o sentimento de amizade real que eu tinha por elas. Uma delas, a mais minha “amiga”, foi irredutível. Mas, no geral, é uma boa pessoa. Tenho no Instagram; se formou, voltou pra terra dela (o que ela tanto queria) e eu fui só uma pedra no caminho. Ela também foi no meu, de um jeito que eu nunca esqueci. Infelizmente não aprendi nada sobre pessoas com essa moça. Se tivesse, talvez não estaria tão triste agora. 


Este texto é um desabafo, que cairia melhor, talvez, em um stand up baseado em humor autodepreciativo. Pois é. Atribuo a recorrência de pessoas assim na minha vida a dois fatores: o capitalismo e a minha capacidade de relativizar o que não tem explicação. O capitalismo nos condiciona, desde sempre, ao individualismo; há quem leve isso ao extremo, seguindo a lógica (que não resiste a qualquer análise) de que “vão-se os anéis, ficam os dedos”. Até quando ficam os dedos? De que forma ficam os dedos? Se os “colaboradores” de uma empresa não são, eles mesmos, os dedos, quem será? O dinheiro não se faz sozinho. É típico do cinismo empresarial “acalmar” uma equipe dizendo mentiras como “eles já sabiam”, “não foi inesperado” e “eles aceitaram tranquilamente”. Minha irmã, qual é a alternativa a “aceitar tranquilamente”? Se for quebrar a empresa ou incendiar o notebook de vocês, realmente, nós fomos bovinos. Na realidade, você sabe que não existe alternativa, mas se isso é o que te faz deitar à noite no travesseiro e conseguir dormir, vá lá. Só saiba que é mentira (e que eu sei que você mentiu, para os outros dedos durante uma reunião fajuta, e pra mim, na minha cara, semanas antes e por semanas seguintes). Provavelmente por isso você não quis que eu fosse entregar pessoalmente o “cartão do estacionamento” (ó). Não porque estavam “todos emotivos”, mas porque seria difícil, para você mesma, sustentar o olhar. Por um tapinha no ombro, por uma piscadela, por meia dúzia de palavras cifradas, você perdeu o afeto de uma amiga. Trouxa eu, né? Quantas vezes chamada de puxa-saco só para continuar a ser próxima de você, porque pessoalmente você era legal comigo. Eu não esperava isso; não saia dizendo que estava “no nosso horizonte” ou qualquer outra meia verdade cínica. Se poupe e assuma que vender a alma ao diabo do capitalismo tem seu preço (e ele não costuma ser baixo). 


A minha capacidade de relativizar o impensável vem, certamente, da infância. Era comum ser xingada e ouvir ofensas; em seguida, estávamos todos ali, assistindo TV, conversando, vivendo. Pedidos de desculpa nunca foram o padrão. Guardar raiva então… Chantagem emocional. Faltou a tal validação, sem sombra de dúvida. O impacto é tão grande que outros dedos me mandaram mensagens emocionadas, falando da “bruta sacanagem” que elas (as amigas felinas) tinham feito comigo e eu ainda as defendi. Disse que tinham que escolher alguém, que deve ter sido de última hora, que isso e aquilo. Vale qualquer coisa para não levar, além de uma portada na cara, um puxão de tapete, tudo junto e misturado (e, aqui, encontramos a força expressiva das metáforas, mesmo as já cristalizadas pelo uso, e a potência de uma expressão popular encaixadinhas. Obrigada, empresa!). Demorei uns dois dias para entender a dimensão de tudo isso, para tomar a pílula em que se lê “remédio amargo, mas necessário”. 


Talvez eu seja, como disse uma amiga de república (outra, não a linda loirinha médica), alguém que “se importa demais”. Me sinto, frequentemente, deslocada, como se fosse um crime não esperar o pior das pessoas. Como se eu fosse tola por acreditar que seja verdade o que me dizem como sendo verdade. Queria terminar este texto com Drummond. “Sento-me no chão da capital do país às cinco horas da tarde / e lentamente passo a mão nessa forma insegura. / (...) É feia. Mas é uma flor. Furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio.”


O que esperar das pessoas em um mundo cinza? O que nos faz pessoas, hoje, se até mesmo a amizade (não falo nada do amor, esse bicho naturalmente amalucado e confuso) obedece aos trâmites burocráticos de um mundo egoísta e cinza? De um mundo feito por pessoas covardes e silenciosamente amedrontadas. Agora que eu posso gritar, eu grito, porque “enquanto houver espaço, corpo, tempo e algum modo de dizer não, eu canto.”


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