Eu, escada
Não é fácil assumir certas fragilidades. Ainda é melhor conviver com o medo da rejeição do que com a própria rejeição, e assim seguimos caminhando por aqui. De sincericídio a sincericídio, mas nunca uma dose de verdade suficiente para que eu ouça aquilo que mais temo.
Tenho me sentido uma escada. A palavra “escada” pode ter boa conotação, para os altruístas, entre os quais eu, pelo menos hoje, não estou. Uma escada é instrumento, ferramenta importante que permite alcançar lugares, galgar momentos e pessoas que, sem ela, não seriam acessíveis. Mas a escada nunca sai do lugar; ela leva e eleva, permanecendo como meio, nunca como fim ou companheira de jornada. Alguém ou algo, lá em cima, vai colher os frutos do sacrifício de uma escada. É um pouco inglório preparar pessoas para a vida, treinar habilidades sentimentais para que outras pessoas, mais leves, menos comprometidas, atenuadas desse turbilhão emocional, que evitam o caos, entrem e se assentem, descompromissadamente fruam do seu investimento, às vezes, de anos.
Eu já quis caminhar ao lado, sobre a ponte. Já quis que me carregassem no colo também, nos meus momentos de dor. Tenho a impressão de que esse segundo cenário jamais aconteceu. Nesse momento específico, porém, eu me sinto apenas a ponte. “Obrigada por ter permitido que eu falasse desse assunto, você foi importante por ter me ouvido pela primeira vez.” Ou, ainda, “Pois é, você sempre me disse que eu tinha problemas com álcool e precisava de remédios. Agora, que eu estou um pouco mais estável, parando de beber e tomando os remédios, vou viver do lado de alguém mais leve e que não tenha movido sequer uma pena por mim.”
Eu sou assim, descartável e frequentemente descartada. Insuficiente para os que também são insuficientes pra mim, mas que a minha teimosia insiste em tentar consertar. Me sinto vivendo em um mundo hipócrita (ou eu estou totalmente defasada, desconectada da realidade, como sugeriu uma ex-amiga). Ela dizia que eu vivo em um mundo bonito, mas difícil de ser real. “Por amor às causas perdidas”, o meu coração sangra por só entregar e nunca ser suficiente.
Fico, como na canção do Coldplay, tentando consertar as pessoas, ajustar os cantos aos meus cantos, encaixar e aparar as arestas. Como se tudo tivesse jeito. Como se o trabalho e ansiedade desse processo não fosse frequentemente mais custosa pra mim do que simplesmente aceitar que não, não é possível. É como uma impossibilidade, uma incapacidade. Eu não nasci com a parte do cérebro que tenta se autopreservar e dá no pé antes que a coisa fique feia. Pelo contrário, gosto de um problema, de uma pessoa complicada, de um bom quebra-cabeças, mas parece que as outras pessoas não gostam de perder tempo com gente assim, como eu, também complicadas e parecidas com um bom quebra-cabeças. Os iguais não se atraem, e, pelo visto, os opostos também não.
Eu queria ter a chave da resignação. Eu queria ter a chama de vida, la forza della vitta. Não consigo acreditar que encontrei alguém que cantasse La solitudine comigo, e que esse alguém se foi. Me sinto um pouco culpada, muito insuficiente e terrivelmente desinteressante.
Sinto que não sei me dividir entre partes iguais e harmônicas. Se sou mãe, sou só mãe, para ser uma mãe suficientemente boa, como diz aquele psicólogo famoso. Se sou mulher, sou devorada pela chama de ser só mulher, um conceito que eu ainda não entendo bem. Enquanto vivo a ansiedade de achar o amor, o amor tranquilo, cheio de paz e carinhos no sofá, tão próximo do que você me deu (pena que era tudo só por você, para que você se sentisse bem, talvez fazendo algum tipo de caridade), eu me desligo do resto. Meu filho parece um figurante dentro de casa, meu afeto por ele se torna superficial, capenga, a cabeça em outro lugar, a cabeça no “quase”. O trabalho, que já não me faz feliz há muito tempo, se torna ou um passatempo para driblar a cascata de pensamentos, ou um fardo terrível. E os planos para o futuro ficam ali, bem na minha porta, cobrando para existirem, empurrando a minha anedonia com um cartaz em letras garrafais “PENSE EM VOCÊ”.
E tem dias, como hoje, em que eu estou entregue ao “quase”, ao devaneio. Me sinto enlouquecendo porque eu simplesmente quero você. Me sinto obcecada, uma velha garota levemente obcecada, mas orgulhosa demais para dizer que sinto saudade do seu corpo. Sinto saudade do seu cheiro e do seu cabelo. Gostei mais de você do que você de mim, e não está tudo certo. Acho que andei escutando demais música adolescente, culpa do Jão. Não, não é culpa do Jão que eu seja mesmo uma idiota. Fui devagar, pedi pra ir devagar, mas não adiantou nada… O meu coração não costuma ceder aos apelos da minha racionalidade.
Eu quero você, quero muito você. E precisava admitir isso pra mim mesma antes de te esquecer. Precisava admitir que me apaixonei (e tenho vergonha até de escrever isso) e que não fui correspondida. Precisava dar o nome para poder te esquecer. E eu vou tentar, sei que vou conseguir e não vai demorar, mas eu não queria mesmo era me livrar do sentimento de importância que você me fez sentir. Como se você fosse uma pessoa só minha, a única pessoa do mundo que, dentro do meu mundo, eu não precisava ceder ou dividir com mais ninguém. Uma pena, uma grande pena que a importância tenha dado lugar à impotência e, por fim, à insuficiência. Eu não bastei para os seus delírios românticos, eu não fui suficiente para vencer a distância e o silêncio, mas eu vou seguir. Parece que tomei um tiro toda vez que fecho os olhos e lembro de você e do nosso “quase”, mas eu vou seguir.
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