Why so suicide, girl?
O que te foi arrancado tão cedo ou com tanta força que te faz buscar uma intensidade nas pessoas que elas simplesmente não são capazes de dar?
O que significa, e por que tanta dor em, o rótulo “suicida”? Se você é alguém que, como disse seu ex-abusador (ou seria mais adequado, acho que sim, “ex abusador”), busca a pena de quem te rodeia, não existe nada melhor do que ser uma suicida, não? Mas, esquece, pois nem a religião tem pena de “nós”, meus irmãos desencarnados que queimam em um vale ou pagam “prendas” de expiação cristã girando a roda que se negaram a girar em vida, em algum dos círculos do inferno. Vocês têm a minha pena, espero ter a de vocês.
Se você de fato busca a pena do outro, o que te impede de ser um pouco mais branda com você mesma, que se reconhece digna ou merecedora de “pena”? Por que não usar um pouco da sua compaixão e relativismo sempre operantes a seu próprio favor? Já que, respondendo à primeira pergunta, seu pai foi arrancado (ou arrancou-se) tão cedo da sua vida, sem deixar nada no lugar, ou nada que pudesse preencher aquele lugar. Foram anos de uma solidão permeada de palavras, de vultos de um passado imensamente presente, mas que você não viveu. Você só ouviu, você só sentiu, mesmo que fosse dentro da barriga da sua mãe, na forma de chutes e pancadas, mas viver? Viver, assim, de verdade, no sentido de testemunhar, não, você não viveu. Será que sua incapacidade de se acolher como mãe veio da sua incapacidade de se entender como filha? Em que parte do seu caminho ficou perdido o pedaço que agora faria toda diferença? O que é, afinal, e por que segue doendo, ser uma suicida?
Se você está viva e é alcunhada, assim livremente e com tanta crueldade, de “suicida”, duas coisas se impõem: se acham no direito de ofender o mais profundo da sua alma, de forma franca, sem quaisquer temores, porque a sedução que esse nome carrega para o seu ímpeto interior sequer foi considerado. Você não lida com gente… você lida com monstros? Ou gente é isso aí? Talvez. A segunda coisa: você fracassou e segue fracassando. Se você está viva e é chamada de suicida, isso significa que não deu certo pra você, que você deseja ir embora, mas, por algum motivo de três anos, não consegue e não conseguiu de novo. Mas as marcas de cigarro não podem te deixar esquecer que nenhuma migalha de carinho deste planeta, triste planeta, compensaria a crueldade… A sua crueldade com você mesma. Quem, afinal, senão uma suicida, marca a própria pele, pinta a própria dor com as tintas de uma tatuagem de fogo, por causa da maldade de outra pessoa? Onde ficou aquela fera que sabia se defender, e agora se acanha diante da verdade mais óbvia?
Não deixe, não deixe, simplesmente não deixe passar. Conserva a sua dor, você, que não foi capaz de conservar o amor por si mesma. Conserva, então, com requintes de Pequeno Príncipe com a sua rosa, a sua dor. Quando você pensar em fraquejar (ou em fracassar, de novo), olha bem para a tatuagem de fogo, na sua perna. Pensa que, um dia, não muito tempo atrás, em troca de punhados de afeição, você permitiu que entrasse na sua vida um ser humano capaz de tatuar, ele mesmo, com as cinzas do futuro derrotado de um relacionamento abusivo… a sua perna. Ele te queimou. O pai do seu filho te queimou com o cigarro. Você se queimou com o cigarro agora. Seria só mais uma forma de se autopunir? Ou um ritual de fechamento de ciclo?
Por que você se cortou agora? Qual foi a emoção predominante? O abuso, tão claro, ou aquilo que sempre te parece mais sutil e mais carnal, mais sólido e rasteiro, o abandono? A rejeição de quem deveria te proteger. O descaso de quem deveria estar por você.
Chora, menina, a perda do seu pai, todas elas. A primeira, que você não consegue lembrar. A última, que você não consegue esquecer. E chora também todas as outras, o entreato, todos os soluços contidos e as fúrias de lágrimas desesperadas que chamavam pelo socorro de quem deveria te proteger. Que conclamavam a presença e a defesa de quem deveria estar por você, mas por motivos outros, motivos mil (que, talvez, agora, você entenda um pouco melhor), achou que era melhor estar ausente. Que você já sabia se defender sozinha, que você era grande o suficiente, que você não seria, nunca, por ocasião desse abandono, uma suicida.
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