Sobre relacionamentos abusivos e a (indesejada) permanência de padrões familiares
É frequente me pegar refletindo sobre por que permito que certas
situações desgastantes, para não dizer tristes, continuem se repetindo, embora
eu tenha consciência delas. Por que permaneço ajudando quem não me ajuda? Por
que continuo escutando atenciosamente quem não demonstra interesse em saber como
eu estou? Por que analiso a personalidade, revirando passado, caminhos, entre
trechos, boatos, elaborando teorias, de quem e sobre quem sequer está a fim de
me enxergar no hoje?
Pouco se diz, ou talvez não da maneira mais clara, como convém, sobre
a coparticipação do abusado em relacionamentos abusivos. Se uma das pessoas
abusa, a outra, uma vez ciente do que está sofrendo, ou mesmo apenas na esfera
dos afetos não retribuídos e da vivência costumeira da exploração e de ofensas,
esse ser humano, rotineiramente uma mulher, precisa permitir que o
relacionamento perdure; precisa estar disposta a não o encerrar, a sempre
“esticar a corda”. No pior dos casos, e com frequência, o abusador alcança o
ápice, que é fazer com que o outro se sinta culpado pelos abusos, usando da
estratégia da inversão (“é, acho que fulano deve estar certo. Eu devia ter
ficado quieta, esperado ele se acalmar antes de falar e piorar as coisas”), negligente
(“poxa, eu poderia ter feito mais para agradar... talvez ele não teria agido
assim”) ou exagerado (“acho que pode ser coisa da minha cabeça, ele não foi tão
agressivo assim”). Mas, seja qual for a circunstância (um casamento de longa
data, uma relação com filhos, dependência financeira, negócios em comum, a
lista é longa), é necessário que o abusado veja algum sentido em não dar um
ponto-final a uma relação permeada por estresse, cansaço, cenas de imaturidade
e lágrimas. Por que alguém permanece em algo assim? Essa é a pergunta que eu
quero responder, sob o ponto de vista individual.
Esta semana, durante um episódio de doença do meu filho, fui chamada
grosseiramente de lenta, com o arremate de que “além de lenta, será que agora
está ficando burra?” Eu não reagi. Pensando depois, essa anedonia temporária é
o que me surpreende. A princípio, pensei que pudesse ser uma prova de
maturidade: entendi o momento (de tensão, de preocupação para ambos),
compreendi que não era a hora de revidar, pois importava mais agir em benefício
do meu filho do que bater boca, reclamei do modo como fui tratada, mas sem
delongas e sem revanchismo. Madura, né? Talvez. Sigo pensando nisso, e uma
hipótese que não pode ser descartada é a de que uma pessoa em relacionamento
abusivo (frequentemente ofendida, usada no momento de necessidade e carência
como “psicóloga” e “ouvidora”, jogada para escanteio por interesses diversos)
naturalize ser tratada dessa forma. Com o tempo, as reações arrefecem; entra-se
no piloto automático (“essa pessoa é assim e não vai mudar...” / “não é momento
para discussão” / “depois eu tento conversar” / “deixa pra lá, responder nunca
melhorou nada aqui”).
Entramos no campo da “naturalização” do abuso, da violência, seja
física ou psicológica. Pessoalmente, acredito que a minha tolerância para
situações abusivas venha da infância. Cresci em uma família grande, mas
desunida, em um verdadeiro entra-e-sai de gente da minha casa. Sou a caçula de
cinco irmãos. Minha mãe é sobrevivente de uma criação paupérrima e vítima de
abusos (meu avô era alcóolatra, negligente e violento; minha avó, diante disso,
se viu forçada a sustentar nove filhos sem suporte, era agressiva e “dura”,
principalmente com as filhas). Por que alguém permanece em algo assim? ─ Posso
rir daquele parágrafo? Sim? Ufa, obrigada.
Hoje, posso dizer, com base apenas nas minhas observações, e não em
laudos médicos, que todos os meus têm, cada qual, condições psicológicas muito
associadas a essa configuração transgeracional que, pela minha mãe, chegou parcialmente
até nós. Na minha casa de criança, eram comuns as brigas, com destaque para as discussões
e alguns “pegas pra capar” entre irmãs. A velocidade com que isso acontecia me
marcou, mas demorei anos (muitos anos e muita dor) para perceber que
emendávamos uma discussão, por mais palavras horríveis que tivessem sido ditas,
em um almoço “normal”, com conversa e até beijos e abraços, sem que ninguém
tivesse refletido, capitulado ou pedido desculpas. E eram situações diárias. Não
havia “dar um tempo” ou “ficar com vergonha do vexame”. Era um embrulhar de
vida cotidiana, um levar e buscar filhos e netos na escola, um fazer almoço
para cinco, quatro, três... Não dava tempo para sentimentalidades. Se eu
chorava mais (olhando em retrospecto, sempre fui uma menina “sensível”), ouvia
que estava fazendo “chantagem emocional”. Se eu tentava replicar e explicar por
que estava chorando e me sentindo mal, ficava era falando sozinha. Eu acredito,
fortemente, que venha dessa parcela do meu passado a “naturalização” do abuso.
Continuo me regenerando tão rápido quanto uma planária das palavras ofensivas,
das brincadeiras sem graça, das críticas infundadas e, por que não, de palavras
e atitudes que eu jamais disse e tomei (faz parte do jogo do manipulador esse
mundo imaginário, que só tem como vilão o outro, enquanto ele permanece no
papel de ofendido ou, quando forçado, na confortável e frágil mea culpa).
Como voltar no tempo e dar um abraço naquela garota que chorava tanto?
Como fazer com que o pedido de desculpas, a cara amarrada, as lágrimas ─ todos
os símbolos sociais e comportamentais que podem indicar uma espécie de mágoa e
conscientização do erro, do sofrimento causado ao outro, sejam incluídos na
vida daquela família? Ainda não existe o vira-tempo, que pena. Meu objetivo com
estas reflexões não é, de nenhuma forma, culpar a minha família ou a minha mãe.
Tive há muito tempo, ainda na adolescência, a iluminação de que, como eu, minha
mãe e meus irmãos são derivados de uma realidade anterior, produto de uma
criação e das forças absurdas de um meio excludente e opressivo para pobres e
mulheres (somos cinco filhos, quatro mulheres). De limão, é possível fazer
caipirinha, desde que se adicionem dois copos de lágrimas e algumas gotas de
sangue. Dá até pra viver bêbado a vida toda, coisa de pobre, filho de mãe
solteira. As mulheres-mães e seus bebês, suas crianças, seus adolescentes, seus
filhos adultos desempregados, seus filhos em porta de botequim e caídos nas
ruas, seus filhos pretos assassinados, quem se importa com eles?
Quanto à minha reflexão, por enquanto, eu só tenho esboços e algumas
respostas, mas não tenho uma solução. Gostaria de ser assertiva e cumprir as
promessas que a raiva, muito justa, faz: “não piso mais aqui”. Pronto, nunca
mais pisar. Mas tenho um filho e, infelizmente, “não sei guardar mágoa”, essa
característica que, ao invés de me tornar um ser humano melhor, me transforma
em uma mulher fraca, suscetível e sempre assistindo à reprise dos próprios
sofrimentos, como se estivesse com as mãos amarradas. As mulheres e suas dores,
seu passado, sua socialização para calar e servir, seus filhos para sustentar,
seus relacionamentos abusivos, seus feminicídios nas folhas dos jornais
diariamente, quem se importa com elas?
Não tem jeito. Eu sempre caio no machismo e na “questão social”,
mas... A psicologia não deveria existir alienada das muitas camisas de força
que nos são colocadas aqui, neste mundo, desde o nascimento. O sofrimento
psíquico não é exclusividade de burguês.
Fev. 2022
Comentários
Postar um comentário